A Malandragem e Dialetica Brasileira
Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), o filme de Bruno Barreto, bate meio despretensiosamente em nossas telas para se tornar por decadas o filme brasileiro mais visto em salas de cinema
A poesia de fundo narrativo, fácil e ligeira, da literatura de Jorge Amado é transformada num estilo de encenação cuja caricatura do natural é tão singelo quanto exacerbado nas mãos do diretor Bruno Barreto. Dona Flor e seus dois maridos, o romance de Jorge, foi escrito em 1966 e parecia reeditar, à luz duma década problemática, os problemas ou questões da ficção dum autor contemporâneo muito tomado por alguma herança naturalista. Dez anos depois. Dona Flor e seus dois maridos (1976), o filme de Bruno, batia meio despretensiosamente em nossas telas para se tornar por décadas o filme brasileiro mais visto em salas de cinema; um jovem cineasta, filho dum casal de produtores cinematográficos ligados ao Cinema Novo, encontrava o público sempre negado às dificuldades de comunicação de nosso cinema. Bruno em seu filme simulava uma realidade de filmar trabalhando com caricaturas bem mais expostas como caricaturas que aquelas que Jorge punha em seu romance; contando com recursos de produção inabituais entre nós, tendo a seu crédito os nomes empenhados de Eduardo Coutinho e Leopoldo Serran como corroteiristas ao lado do realizador, na fotografia o talento visual de Murilo Salles (na cópia relançada o brilho fotográfico parece esmaecido pelo tempo), Dona Flor e seus dois maridos reproduz em termos cinematográficos a brejeirice brasileira trazida pelo original literário de Jorge Amado. Na passagem da literatura para o cinema, desce-se mais alguns degraus na concessão às plateias.
“Vadinho, o primeiro marido de Dona Flor, morreu num domingo de carnaval, pela manhã, quando, fantasiado de baiana, sambava num bloco, na maior animação, no Largo Dois de Julho, não longe de sua casa.” O começo do filme descreve a morte objetivamente descrita pelo romancista. O comportamento da câmara é também objetivo, e mais seco. Depois, é o enterro, o luto. As lembranças dos tempos pândegos, sexuais e preocupantes de Flor com seu malandro Vadinho. O surgimento do circunspecto e formal Teodoro, o farmacêutico local, vai estabelecer um contraponto entre os dois casamentos de Flor, o amante insuperável Vadinho e o desajeitado e cheio de linhas Teodoro. Esta dialética brasileira, que Jorge expõe com a natureza fácil mas de senso literário, é metamorfoseada no cinema de Bruno: o esqueleto caricatural incomoda os aspectos narrativos, a despeito da aparente segurança da encenação do conjunto de episódios.
Ainda com todas as reservas que se podem fazer às opções da versão cinematográfica de Bruno (especialmente sua forma duma comédia que vulgariza rapidamente o cômico), aos olhos de agora é inviável dar com Dona Flor e seus dois maridos sem levar em conta a estatura de filme que marcou o cinema brasileiro nos anos 70, dialogar com o público sem se tornar um parente da pornochanchada. O elenco é cheio de achados, e muitas vezes um resumão do cinema nacional da época. Este filme catapultou Sônia Braga, segundo Jorge Amado a mais brasileira das atrizes, para o estrelato que se seguiu. José Wilker já vinha com nome no cinema, mas o inesperado estrondoso sucesso de bilheteria deste filme impulsionou sua carreira, seu Vadinho tornou-se um ícone narrativo de nosso cinema. E há Mauro Mendonça, compondo um Teodoro de maneira bastante crítica, em gestos e entonação. Ao redor deles, uma constelação brasileira: Nelson Xavier, Nelson Dantas, Rui Resende, além da aparição de Betty Faria cantando como uma “cantora famosa”. A cena final de Dona Flor e seus dois maridos tornou-se clássica de nossa brejeira dialética: saindo da missa, descendo ladeira abaixo (quando estive a primeira vez em Salvador, em 1978, me apontaram no Pelourinho a lomba onde foi filmada a cena), de um lado o circunspecto Teodoro bem vestido, no meio a sensual Flor rebolando (“—Vejam como vai se rebolando. A cara séria, mas as ancas — olhem aquilo!— soltas, até parece que alguém está bulindo nelas... Um felizardo esse doutor...”, é um diálogo de Jorge Amado), do outro vai Vadinho pelado apalpando firme a bunda rebolativa de Flor.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro Uma vida nos cinemas, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
relacionados
últimas matérias