Quem Salvara um Mundo Sem Salvacao?

Godard se vale de alguns planos decompostos em camara lenta

23/08/2026 04:03 Por Eron Duarte Fagundes
Quem Salvara um Mundo Sem Salvacao?

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Anos depois de esgotar-se na “nouvelle vague” e depois de uma década de 70 em que se entregou a um cinema clandestino, Jean-Luc Godard voltava a ocupar as rodas dos cinemas comerciais com Salve-se quem puder (a vida) Sauve qui peut la vie; 1980). Quem ainda se lembrasse de Week-end à francesa (1967), seu último grito antes de submergir no cinema à margem, descobria agora um Godard formalmente mais sereno (ou menos turbulento em sua montagem) mas ainda complexo e original nas relações formais que propunha. Godard acusava a maturidade mas sua irreverência e desdém eram capazes de um desconforto para o espectador. Pauline Kael, no centro da crítica, acusava: Godard era um cínico e um descrente. E o dado de Kael era relevante. E era isto que fazia com que o cinema de Godard pairasse único. Para todo o sempre no cinema.

Os interstícios particionam a narrativa de Godard. A plástica imagem de nuvens brancas sobre o céu azul cobre o título: Salve-se quem puder. Após entrar em cenários interiores a câmara depara a personagem de Paul Godard (não por acaso o sobrenome do diretor, esta personagem interpretada por Jacques Dutronc), surge o subtítulo, a vida. Assim se fragmenta o filme desde seu título; primeiro, salve-se quem puder; depois uma espécie de aposto que também se converte numa apóstrofe. E as partes de que se compõe o filme se acumulam: O imaginário, o medo, o comércio, a música. Paul faz televisão. Ele está às voltas com algumas mulheres. A ex, Denise (Nathalie Baye). Uma prostituta, Isabelle (Isabelle Huppert). Uma filha de dozes anos, Cécile (Cécile Tanner). A mãe de Cécile, com quem ele fora casado. No início do filme, um homem, num estacionamento, mete parte de seu corpo no carro de Paul, tentando forçar beijos e talvez relações carnais com Paul. Carros e estacionamentos marcam os interstícios do filme. A meretriz, numa determinada cena, é arrastada para dentro dum carro e violentada.

Godard se vale de alguns planos decompostos em câmara lenta. É um uso bastante particular da câmara lenta: como se quisesse fixar o gesto, prolongar a ação.

Uma das cenas centrais desta realização, e talvez de todo o cinema de Godard, é uma espécie de orgia dentro dum escritório. Um executivo determina a Isabelle e a outra garota certas ações sexuais com ele e com um outro homem, seu colaborador; a fala da personagem do executivo é desdramática, seca, descrevendo as aproximações carnais com uma estrutura mecânica e fria, uma coisa sem vida; ao encenar o sexo assim, dito e sem sangue, a sequência reproduz os mecanismos do comportamento burocrático de um tempo histórico. Em Week-end houve uma cena parecida, quando uma jovem passa a descrever uma aventura sexual que teve: o sexo falado. O imaginário e o medo estão entre Paul e Denise; o comércio vai pelo caminho de Isabelle.

Marguerite Duras, um nome mítico do cinema e da literatura, aparece no filme novamente com sua voz, aliás ela não está creditada; Godard, o realizador do filme, não a criatura Paul Godard, queria que ela aparecesse diante da sala de aula mas ela recusou, aceitou estar ali somente sonoramente.

Salve-se quem puder (a vida) não é uma afirmação: como parece. É uma indagação: mostrando a vulgaridade e a mediocridade, cada plano pergunta: quem se salvará num mundo sem salvação? É o significado do olhar significativo da atriz Isabelle Huppert em cada quadro intersticial em que aparece seu rosto nas cenas do “sexo descrito” no escritório enquanto o chefe vai desfilando suas palavras sem vida.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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