O Suicídio pela Humanidade

Stefan Zweig, adeus, Europa (Stefan Zweig, farewell to Europe; 2016), filme dirigido pela alemã Maria Schrader, acompanha a fase final da vida e da carreira do escritor austríaco

13/05/2017 15:06 Por Eron Duarte Fagundes
O Suicídio pela Humanidade

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Stefan Zweig, adeus, Europa (Stefan Zweig, farewell to Europe; 2016), filme dirigido pela alemã Maria Schrader, acompanha a fase final da vida e da carreira do escritor austríaco Stefan Zweig, localizada no Brasil. Como ocorreu com vários europeus durante a II Guerra Mundial (sejam eles intelectuais ou não), Zweig abandonou a Europa, impaciente com os rumos das sociedades que então ameaçavam formar-se no continente. No caminho europeu, primeiro desembarcou em Londres e, às primeiras fumaças bélicas, vai para os Estados Unidos e depois o encontramos no Brasil, na serra fluminense, na cidade imperial de Petrópolis, onde um cenário bucólico lhe permite inicialmente tranquilidade para compor seus livros. Mas isto não dura muito: em fevereiro de 1942, assoberbado pela leitura dos jornais que invadem seu pacífico sítio na serra do imperador, Zweig e sua mulher Lotte Altmann tomam doses mortais de soníferos. Como ele escreve na carta de despedida, já não tem paciência com o mundo e vai em frente; a mesma impaciência que o fez sair da Europa, o faz sair da vida. Se o suicídio do presidente Getúlio Vargas na década seguinte teve uma natureza política, em defesa do povo brasileiro, o suicídio de Zweig foi em favor da humanidade, diante da visão da falência do humano, algo parecido com a vida definhada do diretor de cinema brasileiro Glauber Rocha nos anos 80: a visão dum país falido, cultural, política e moralmente.

A reconstituição do filme de Maria Schrader (filmado, ao que se diz, numa colônia portuguesa na África, com atores portugueses nos papéis de brasileiros, para baratear seu custo) começa na recepção que se dá ao famoso escritor em sua chegada ao Brasil. E vai concluir-se com a cena logo depois do suicídio, na ambientação suicida: vemos e ouvimos os investigadores, citações da carta final de Zweig, uma  atmosfera consternada pelo episódio. O suicídio é, pois, a elipse do quadro. Entre a sequência inicial e a sequência final, a narrativa percorre o espírito maduro, crítico e humanista deste escritor que, embora resistisse a bradar claramente contra os desmandos em sua pátria (o que trouxe para ele considerações espinhosas sobre escapismo e alienação), revelou em sua derradeira ação uma tensa inquietação diante de tudo o que estava ocorrendo no mundo.

Os textos de Zweig já foram visitados pelo cinema. Carta de uma desconhecida (1922) foi filmado por um dos maiores diretores de cinema do mundo, o alemão Max Ophüls, em 1948. Medo (1925) chegou às telas em 1954 pelas mãos de um cineasta não menos importante, o italiano Roberto Rossellini. Recentemente, Wes Anderson utilizou excertos de histórias de Zweig para montar seu Grande Hotel Budapeste (2014).

No fundo esta relação tensa entre fazer arte e comprometer-se social e politicamente que sempre se abeirou da personalidade de Zweig, é também da natureza ontológica do cinema. Como destaque final do filme de Maria Schrader, a presença no elenco da grande atriz alemã Barbara Sukowa, vista este ano num dos grandes filmes da temporada, O mundo fora do lugar (2015), de Margarethe Von Trotta.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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