A Desumanidade do Humano

O cineasta americano Darren Aronofsky é ambicioso. Em Cisne negro (Black swan; 2010) esta ambição atinge seu paroxismo estético

25/08/2017 23:51 Por Eron Duarte Fagundes
A Desumanidade do Humano

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O cineasta americano Darren Aronofsky é ambicioso. Em Cisne negro (Black swan; 2010) esta ambição atinge seu paroxismo estético. A demência de encenação de Aronofsky não deixa de balançar a consciência de espectadores de várias latitudes. O cineasta sacode-se o tempo todo ao filmar seu projeto cinematográfico e, em Cisne negro, ele sacode a passividade do espectador. Cisne negro é um filme que se olha no espelho: exibe-se como um Narciso-filme, tenta o brilho barroco, ainda que muitas vezes se entregue a facilidades superficiais comuns num realizador intelectual que nem sempre ajusta a profundidade de seu olhar. O espelho é um signo forte em Cisne negro, mais ou menos como o fazia o alemão Rainer Werner Fassbinder num de seus mais belos filmes, Effi Briest (1974); certas imagens se refletem em espelhos ou se duplicam na lente da câmara, e o próprio desempenho inusitado de Natalie Portman é uma coleção de espelhos que se encenam e superpõem. Cisne negro vem a ser uma reflexão (reflexo-espelho) sobre o que acontece em nossa mente quando a imaginação é um reflexo (espelho) do que acontece fora de nós. O que acontece fora de nós pode estar dentro de nós. Ninguém nos mutila: mutilamo-nos. Aronofsky é especialmente hábil em Cisne negro em lidar com os paradoxos entre a realidade e a fantasia neurótica.

Cisne negro não chega a ser um filme que se possa amar irrestritamente, embora em muitos de seus momentos se chegue a ter vontade de se entregar ao jogo de sedução, fácil e solto (mesmo que elaborado), que a narrativa de Aronofsky propõe. Cisne negro age um pouco como sua personagem central, a bailarina Nina; ela quer viver a duplicidade malévola do cisne do balé de Tchaikovsky, mas falta-lhe o aprendizado da parte obscura deste cisne; ela terá de mutilar-se para chegar lá; o filme de Aronofsky tenta a mutilação, encena misturando a disciplina do brilho e a liberdade da loucura, mas sua mutilação é parcial, não é tão radical quanto a personagem (e a interpretação) de Natalie. A maravilhosa execução final do balé pelo corpo de Natalie é a expressão da audácia e dos limites que há no cineasta; apesar de todo o rodopio barroco de Aronofsky, tudo o que se vê na tela está, porém, distante do lampejo de gênio do, por exemplo, alemão Alexander Kluge, que, com simplicidade estonteante, filmou os símbolos da ópera Tosca na abertura de sua obra-prima O ataque do presente contra o restante do tempo (1985). Se Aronofsky não nasceu para ser Kluge, é de reconhecer que em Cisne negro ele comprova que, mesmo no cinema para um público maior do que aquele permitido ao cineasta germânico, a inteligência pode elaborar as torpezas humanas.

Cisne negro, vasculhando nossa negritude interior, é também um filme que trata do que há de desumano no humano. É humano ser bom e dócil? Não é: é pouco humano. O humano na verdade é a neurose da violência. E uma artista como a bailarina Nina só pode realizar-se pela mutilação.

Em torno da caracterização sofisticadíssima mas intensa de Natalie Portman, algumas aparições que a secundam caracteristicamente, enfeixando um balé de personagens visuais. O francês Vincent Cassel (que filmou no Brasil À deriva, 2009, rodado pelo paulista Heitor Dhalia, e onde Cassel contracenava com Debora Bloch, em curioso atrito interpretativo), apesar de seu jeito de sedutor brilhante enfastiado, não compromete o balé. Winona Ryder como a bailarina veterana desprezada ante o surgimento da novata e Barbara Hershey como a envelhecida mãe da protagonista e uma ex-bailarina frustrada são um autêntico jogo de espelhos entre personagem e intérprete, ambos (ator e personagem) ex-divas que decaíram, humana e  artisticamente.

A ambição desmedida de Aronofsky é o que dá a força e também algumas das fraquezas com que topamos ao longo de Cisne negro. Ambicioso, sim: ainda bem, e apesar de tudo.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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