Onde Está o Atraso Brasileiro

O novo ensaio do brasileiro Juremir Machado da Silva, é um livro para lá de necessário no atual momento da sociedade brasileira

26/08/2017 00:03 Por Eron Duarte Fagundes
Onde Está o Atraso Brasileiro

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Raízes do conservadorismo brasileiro. A abolição na imprensa e no imaginário social (2017), o novo ensaio do brasileiro Juremir Machado da Silva, é um livro para lá de necessário no atual momento da sociedade brasileira, em que tentam reviver situações arcaicas como se fosse a última moda, e nosso histórico conservadorismo dá suas caras mais do que nunca. Pesquisando com obstinação, dotando seu texto com aquele estilo em que a linguagem logo se alça a uma condição raciocinada, o ensaísta não perdoa a nada nem a ninguém; aspira à busca da verdade, uma verdade suada, sem desodorantes paparicadores.

Jornalista, Juremir não tapa os olhos para o papel da própria imprensa, cujo conservadorismo rasteiro dominante foi empurrado, a contragosto, pela avalancha histórica da necessidade abolicionista. “A imprensa viveu dias de euforia e de grandes notícias.” Observador arguto do jornalismo brasileiro, Juremir, em outra parte, descortinou o papel da imprensa nos golpes políticos e sociais, aqui ele consegue ver a ambiguidade da imprensa diante do fato; o fato irreversível: a liberdade dos escravos negros no Brasil. Homem de raciocínios, antropólogo visceral, logra dar com as verdadeiras raízes de tudo. “A história da humanidade é a história de suas racionalizações, que, em princípio, parecem limitadas no tempo, mas, vistas de perto, apresentam repetições antropológicas como estruturas recorrentes.”

Escritor extraordinário, Juremir erigiu a figura canônica do romancista cearense José de Alencar para expor os atrasos de nossa literatura alimentados dum escravismo torpe e primário. “Como seus herdeiros conservadores dos séculos XX e XXI, Alencar atacava os utopistas, os filantropos, os defensores das ‘boas causas’, os revolucionários, os comunistas e os sonhadores em nome da ciência. Fazia-o incrivelmente também em nome do direito à diferença e à singularidade.” Que herdeiros são estes? Eles estão ali, no Congresso Nacional destes dias de “grandes notícias”; mas também estão ao lado do próprio Juremir, nos jornais, nos programas de rádio, defendendo  suas opiniões de manutenção do status quo “incrivelmente” em nome deste mesmo direito à diferença e à singularidade. Não mudamos, muito, pois, passados mais de cem anos: Juremir revela-nos, em pesquisa e texto, com uma clareza às vezes assustadora.

Estabelecendo suas preferências intelectuais no processo do século XIX (Joaquim Nabuco, acima de todos, e também gente como o orador e tribuno Rui Barbosa, o poeta Castro Alves e o jornalista negro André Rebouças), penetrando em nosso imaginário abolicionista sem deixar de confrontá-lo com a realidade de suas buscas em arquivos de época, Juremir permite, com Raízes do conservadorismo brasileiro, que caia o pano de nossos teatros: “O que diferenciava o homem dos outros animais? A capacidade de produzir ficção (coisas que não existem naturalmente, mas em torno das quais os humanos se estruturam e pelas quais competem ou cooperam). As narrativas sobre a escravidão foram ficções sempre em mutação.”

Existem várias portas para o estudioso abrir ao dar com o verbete escravidão negra no Brasil. Raízes do conservadorismo brasileiro é uma das mais ricas destas portas. E no livro há portas diversas que o leitor pode aprofundar. A porta que fecha o livro, poderia ser. “O ano esquecido, 1888, é um espectro que ronda.” O ano que a elite conservadora quer esquecer na verdade não tem como ser esquecido: seu espectro não o deixa. Pode-se dizer: a sombra se insinua tanto que vira corpo. E somos obrigados a refletir sobre o abolicionismo e as querelas de sua época como espelhos do que ainda hoje acontece: na imprensa e no imaginário social. Serão hoje superpostos, imprensa e imaginário da sociedade? As raízes estão lá atrás e Juremir se esforça por elucidá-las neste livro que, dialogando com o passado, dirige muitas de suas palavras a nossos contemporâneos de agora.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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