A Parábola Bíblica às Avessas de Saramago

O Caim de Saramago parte do mito da criação do mundo segundo a Bíblia. E o subverte

15/12/2017 11:44 Por Eron Duarte Fagundes
A Parábola Bíblica às Avessas de Saramago

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Romancista ateu, o português José Saramago faz de Caim (2009) uma parábola bíblica às avessas. Humanista acima de tudo, Saramago enxerga o homem e suas perturbadas inter-relações em suas histórias. O ficcionista ateu, apesar de seus pesares, às vezes chega a tocar uma inusitada profundidade espiritual. Seria a arte, e no caso a arte literária, malgrado Saramago, uma possível prova da existência de Deus? O alemão Friedrich Nietzsche, que matara Deus por sua piedade dos homens, exclamou: “Escreve com teu sangue, e verás que sangue é espírito.”

O Caim de Saramago parte do mito da criação do mundo segundo a Bíblia. E o subverte. O Deus de Saramago não é propriamente um bom senhor: se toda a Criação é fruto de seu trabalho e há o mal na Criação, o mal vem dele, este “senhor, também conhecido como Deus.” A ingenuidade metafísica ou materialista do narrador cósmico de Saramago se desenvolve com um agudo brilho de linguagem, numa teia sintática e vocabular que atinge uma lógica narrativa impressionante. O leitor amante de literatura, mesmo aquele que eventualmente possa ser arraigadamente cristão, não deixará de embarcar nesta hipnose estética do grande escritor, aquele em que a língua portuguesa do outro lado do Atlântico, lado a lado com António Lobo Antunes, atingiu os patamares mais elevados ao longo dos séculos XX e XXI. E Caim, novela breve e precisa, tão metafórica quanto realista (entendendo-se a realidade como um meta-símbolo), é um dos instantes mágicos e apaixonantes desta arte de escrever de Saramago.

Deslocado o interesse da visão perversa sobre a conduta fratricida, Saramago se apieda do destino de sua personagem e parece compreender, amargamente, seu destino. “Ao matar abel por não poder matar o senhor, caim deu já a sua resposta. Não se augure nada de bom da vida futura deste homem.” Esta proposição de rever a história de amaldiçoados bíblicos teve em Os vendilhões do templo (2004), do gaúcho Moacyr Scliar, um tratamento menos duro e apocalíptico que este Saramago; mas o leitor pode fazer uma ponte entre o pobre vendilhão odiado pelos tempos em Scliar e este infeliz irmão que matou outro filho de seus pais que é o Caim de Saramago. Saramago, como Scliar, reconstrói o mito negativo para uma equiparação humana com o mito primitivo. E note-se a justificativa: Caim tinha raiva do senhor, mas não o podia matar, então matou Abel, que estava ao alcance da mão e com cuja morte poderia ferir o Pai (ou pai, para usar a provocação de Saramago). De uma certa maneira, Saramago mergulha no complexo de Édipo de Freud: o desejo de destruir o pai, sintoma de todos os males e de todas as limitações do filho.

Sem tréguas, Saramago vai concluir Caim com uma discussão entre Caim e Deus, discussão entre o homem e a divindade que vem séculos afora: sem tréguas. “Depois Caim disse, Agora já podes matar-me, Não posso, palavra de deus não volta atrás, morrerás da tua natural morte na terra abandonada e as aves de rapina virão devorar-te a carne, Sim, depois de tu primeiro me haveres devorado o espírito.” Depois disto não se ouvem mais as argumentações, informa o narrador, porém “se sabe de ciência certa é que continuaram a discutir e que a discutir estão ainda.” Caim não deixa de ser uma destas discussões entre Deus e o homem; o que é um paradoxo de nosso materialismo: se Deus não existe, por que o inventamos na literatura como uma realidade dentro de nós?

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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