RESENHA CRÍTICA: Miss Violence

O filme é uma parábola política de toda a Grécia no seu momento pior de crise financeira

24/09/2014 15:49 • Por Rubens Ewald Filho
RESENHA CR�TICA: Miss Violence

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Miss Violence (Idem)

Grécia, 13. 98 min. Direção: Alexandros Avranas. Roteiro: Alexandros Avranas, Kostas Peroulis. Elenco: Themis Panou, Reni Pittaki, Eleni Roussinou, Kosta Antalopoulos, Constantinos Anathasiades.

 

Finalista na Mostra Internacional de São Paulo do ano passado. Vencedor do Leão de Prata de direção e da Copa Volpi de melhor ator para Themis Panou, no mesmo Festival. Concorreu ainda em Montreal e Estocolmo. Antes disso, o diretor havia recebido por seu único filme anterior, Without, 7 prêmios no 49o Festival Internacional de Cinema de Thessaloniki, na Grécia, com o qual também concorreu ao Festival Internacional de Cinema de Milão.

Agora estréia em São Paulo,esta historia sobre uma pré-adolescente que no dia de seu aniversário de 11 anos, Angeliki,  pula da sacada do quarto andar de seu apartamento e morre com um sorriso no rosto. Enquanto a polícia e o serviço social tentam descobrir a razão para o aparente suicídio, a família da menina insiste que foi tudo um acidente. Qual é o segredo que Angeliki guardou com ela? Por que sua família insiste em tentar esquecê-la e seguir em frente? Não venha procurar semelhanças com as antigas e estilizadas tragédias gregas de antanho. Este filme se inscreve num movimento local que os críticos estão chamando de Weird Cinema (Cinema Bizarro, ou Esquisito) porque tem determinadas características, como se fosse uma peça de Nelson Rodrigues (ambientes fechados de preferência) sem paixão, em que as pessoas se comportam como robôs, no limite do absurdo, as figuras se confundem, se evita trilha musical (aqui ao menos se abre com um canção de Leonard Cohen, Dance me to The End of Love, inspirada pelo Holocausto). E tudo isso deve deixar o espectador perplexo, variando entre a sensação de já ter visto algo parecido antes com a vontade de rir na hora errado.

O diretor teria declarado que essa criança seria o símbolo de muitas outras que tem de se submeter às regras de uma sociedade implacável, dura e sem esperanças, e que no filme recebe todo tipo de exploração e manipulação de um tipo de sistema que algumas pessoas ainda chamam de família. No enredo, há um pai, que como líder, que comanda e define as funções da família, de maneira muito semelhante aos usados pelos poderosos para manipular a sociedade, enquanto os outros membros da família, já não podem viver fora das regras estabelecidas por ele. O autor comenta: “Eu sempre me pergunto quem tem o poder: a pessoa que ataca ou o que sente a dor? A violência mais dura é a do silêncio. Do não dito. Da regularidade que encobre todo vazio emocional criado pelo exercício do poder”.

Talvez a análise mais interessante que possa fazer do filme é que ele é na verdade uma parábola política de toda a Grécia no seu momento pior de crise financeira, política, moral, sendo cada personagem podendo ser comparado com as diversas faces do país (governo, povo, juventude condenada pelos erros dos mais velhos). E como avestruzes todos enterram a cabeça na areia como se nada de ruim estivesse acontecendo. Adotando esse ponto de vista, o filme se torna sem dúvida mais acessível e curioso. Mas só para publico de arte.

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Sobre o Colunista:

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Seus guias impressos anuais são tidos como a melhor referência em língua portuguesa sobre a sétima arte. Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de “Éramos Seis” de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o “Dicionário de Cineastas”, editado pela primeira vez em 1977 e agora revisado e atualizado, continuando a ser o único de seu gênero no Brasil.

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