A Metafísica Nórdica

Neste alvorecer do século XXI desponta a fama de um romancista norueguês, Karl Ove Knausgard

08/03/2018 13:57 Por Eron Duarte Fagundes
A Metafísica Nórdica

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A arte nórdica produziu no século XX um dos seus exemplares mais agudos e universais: o diretor de cinema sueco Ingmar Bergman. Neste alvorecer do século XXI desponta a fama de um romancista norueguês, Karl Ove Knausgard. Os nórdicos (seja Bergman ou Knausgard) tem um jeito peculiar de olhar para as relações humanas, que torna certas situações um tanto quanto abstrusas, num momento inicial, para o observador latino; trata-se do que se convencionou chamar distanciamento ou frieza, mas é na verdade algo muito diferente do que estes mesmos substantivos querem dizer quando se referem a criaturas latinas.

A série Minha luta é o ponto de sucesso da literatura de Knausgard. O romance que a abre é A morte do pai (Mein Kamp I; 2009). Ainda que seja freudiano até a medula, apresenta, em primeira pessoa, transformando a vida numa narrativa (ao modo duma ficção), uma forma nova de ver estas relações evocativas entre um filho (o homem que narra) e seu pai; toda a construção dramática de A morte do pai gira em torno da morte e do enterro do pai do narrador e é a partir das circunstâncias deste funeral preparado literariamente (o reencontro com o irmão e com a avó, as idas e vindas por velhos cenários evocativos) que a arte do escritor norueguês estabelece as ligações de memória dentro de sua ficção, não à maneira de Marcel Proust, com sua vertigem atmosférica, mas com asperezas de linguagem que parecem quebrar certos sopros frasais, algo que se poderia cognominar lampejos nórdicos, como numa imagem de Bergman onde o negativo se espatifa na mesa de montagem.

A morte do pai começa refletindo sobre o instante da morte. “Para o coração a vida é simples: ele bate enquanto puder. E então para.” E temos uma longa digressão (talvez mais de uma, digressões, pois os fluxos se quebram, diferentemente dos encadeamentos proustianos) sobre como um corpo vivo chega ao fim. Enfileirando sua vida pregressa, especialmente suas lembranças do pai, porém não somente, o narrador vai deter-se muito neste ritual de despedida do corpo do pai, que é também uma despedida da alma. Brutal às vezes, dotado duma morbidez ressequida frequentemente, o ânimo narrativo da personagem endurece as veias da leitura: um azedume tipicamente norte-europeu, mas não isento de uma característica ocultamente documental, como quem não está nem aí mas ao mesmo tempo se importa com as possíveis ilusões poéticas do cotidiano —paradoxos conviventes, como neste trecho:

“Esvaziei o balde da pia, despejei um pouco de desinfetante, calcei as luvas amarelas, com uma das mãos peguei o pano que estava em cima da mesa, com a outra peguei o balde e fui para a sala. Lá fora a escuridão começava a cair. Um tênue reflexo azul luzia perto da colina, da copa das árvores, dos seus troncos, dos arbustos da cerca da casa vizinha. Tão tênue que as cores não se extinguiam aos poucos como costuma acontecer quando anoitece, ao contrário, elas se intensificavam; porque a luz não mais ofuscava e o pano de fundo opaco ressaltava toda a sua plenitude. A sudoeste, porém, onde se podia avistar o farol no mar, a luz do dia permanecia imutável. Algumas nuvens exibiam um brilho avermelhado, como se tivessem sua própria fonte de energia, pois o sol se escondera.”

A metafísica abstrata da morte no começo do romance se transforma, no parágrafo final, na matéria real, o corpo morto do pai. “Agora eu via somente a ausência de vida. E já não havia diferença entre aquilo que um dia fora meu pai e a mesa onde ele jazia, ou o chão onde estava a mesa, ou a tomada na parede embaixo da janela, ou o fio que ia até a luminária ao lado dele.” Coisas e corpos que outrora se animaram em vida se equiparam no melancólico materialismo final do universo. Entre uma coisa e outra, um movimento que pode dar a ilusão de vida: “um casaco que escorrega do cabide e cai no chão.”

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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