A Infância Dolorosa

De maneira enviesada e tensamente metafísica, Adeus, Meninos é um grito de Louis Malle contra as intolerâncias do mundo

03/11/2017 07:44 Por Eron Duarte Fagundes
A Infância Dolorosa

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Depois de quase dez anos fazendo seus filmes “americanos”, o francês Louis Malle voltou à França para rodar um de seus mais belos trabalhos: Adeus, meninos (Au revoir les enfants; 1987). Segundo Malle revela no prefácio do texto-roteiro desta sua obra-prima, o assunto deste filme deveria ter sido o de sua estreia como diretor de cinema. Não o foi: amadureceu tanto em suas dores transformadas pelos anos que veio a dar nesta narrativa despojada, precisa em seu relógio estético. Que assunto é este que mereceria a primazia de um primeiro trabalho e dali se afastou pelos pudores emocionais de um cineasta como Malle? É o próprio Malle quem afirma: trata-se do episódio mais dramático da infância do realizador. Em 1944, interno num colégio de padres católicos no interior da França, Malle se relacionou numa forte amizade com um garoto diferenciado que um belo dia foi retirado da sala de aula pelas forças do Gestapo sob a acusação de ser judeu; diz Malle que este laço adolescente interrompido determinou sua vocação de cineasta, quer dizer, o compromisso humano e político de sua arte, o que se comprova em todos os seus filmes.

Em Adeus, meninos o garoto interno “que se parece” com Malle é Julien, um nome stendhaliano. O amigo judeu é Jean. O rigor formal de Malle acompanha com um andamento cirúrgico as evoluções dos garotos em seus naturais conflitos humanos e escolares no cerceado cenário de aprendizado que lhe foi imposta; desde Zero em comportamento (1932), do francês Jean Vigo, o cinema gaulês detém-se no ambiente escolar para o relacionar com as outras ambientações vivenciadas pela adolescência à francesa. Mas o que Malle faz em Adeus, meninos é outra coisa: adicionando a seu rigor particular de composição uma inusitada profundidade espiritual, Malle parte para um cinema cujo parentesco superior é o francês Robert Bresson; quem observar bem, verá que Malle, utilizando rostos pouco conhecidos do cinema, se despoja de atores para transformar seus intérpretes em modelos estéticos, contrabalançando-os entre a emoção e o distanciamento; e o jeito seco e de turva objetividade remete a Bresson, mas sem subserviência.

Em última análise, e de maneira enviesada e tensamente metafísica, Adeus, meninos é um grito de Malle contra as intolerâncias do mundo. Neste aspecto, há duas sequências exemplares em seus signos. Uma delas é a do restaurante onde Julien, acompanhado de sua elegantes mas amedrontada mãe e de seu arrogante e atrevido irmão mais velho, vê um velho senhor judeu ser abordado desrespeitosamente por representantes da Gestapo: a cena é uma antecipação da que ocorreria em sala de aula com o garoto judeu amigo de Julien. A outra cena fundamental para aquilo que o filme se propõe dizer é aquela em que os garotos estão vendo um filme de Chaplin, onde Carlitos é escorraçado pela lei, pela autoridade policial, pela ordem vigente: estabelece-se uma ponte entre a rebeldia inocente e inócua de Carlitos e a situação trágica e fora de alcance daqueles garotos da França ocupada pelos nazistas.

Adeus, meninos parece às vezes ser conduzido com uma elegância clássica por Malle, mas esta impressão é falsa: a narrativa contém tantas centelhas inventivas nos interstícios da imagem que o cerebralismo conduz os episódios de maneira diferente do classicismo a que em princípio se filiaria. É curioso como um filme tão seco, despido de qualquer arroubo emocional se renda, na imagem final de Julien lacrimoso ao despedir-se do degredado judeuzinho, ao calor dos sentimentos melodramáticos: é como se Malle segurasse a corda emocional ao longo de todo o filme (ou de toda a sua filmografia) e finalmente esquecesse seu rigor geométrico, sua exibição de gênio, para se aproximar daquilo que é mais humano e verdadeiro numas memórias. No início do filme, a mão de Julien despede-se dele na estação ao fazê-lo entrar no trem que o levará ao internato; a difícil composição do adolescente com a figura da mãe é um tema recorrente de Malle, como se sabe desde O sopro no coração (1970); mas a despedida da mãe é certamente bem menos dolorosa que a do amigo judeu encaminhado para a morte no final de Adeus, meninos.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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