O Corpo da Palavra à Roda

O Mural Sujo (2017) de Luís Altério tem o dom da palavra à roda

19/04/2018 00:08 Por Eron Duarte Fagundes
O Corpo da Palavra à Roda

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O Mural sujo (2017) de Luís Altério tem o dom da palavra à roda. Faz circular o pensamento dentro do verbo. As centelhas cerebrais do narrador giram: visitam vários espaços do mundo, espaços convertidos altaneiramente em textos. No Mural I, que traz o subtítulo Notas do rodacorpo, lemos: “Todos nós temos naturezas diabólicas.” O corpo do escritor são as palavras, e estas palavras rodam: andam à roda, buscam as coisas mais diversas. Demais, “nós podemos ter uma natureza diabólica se não nos ajudarmos a nós mesmos!” Saindo do “feiças”, como ele diz, Altério vai para a literatura de estilhaços, ultrafragmentada, a literatura para lá de moderna dos tempos das “sujidades” do facebook: um ato de pôr a literatura dentro da realidade dos tempos atuais, ainda que o autor, herdeiro do humanismo lusitano, olhe com desconfiança para estas letras do “feiças”.

Altério é um português nascido na França e que se criou no lugarejo de Fornos do Pinhal, em Portugal. Vindo para o Brasil, mora num outro lugarejo, Vitória da Conquista, interior da Bahia. Uma vida nos confins que aprecia e nos faz apreciar as grandes coisas que estão além do vale, além do horizonte. O fato de ser um português em terras brasílicas determina uma certa essência da escrita nervosa e tensa de Altério. O encontro do leitor brasileiro com estas versões miscigenadas da língua portuguesa pode ser excitante. Você não encontrará ali nem o arroubo multissintático de António Lobo Antunes nem a sisudez das metáforas de José Saramago, para citar dois exemplos prestigiados de escritores lusos ao longo do século XX. O que topamos no calor das páginas de Mural sujo de fato propõe sujar partes do idioma e o recria: à maneira de Altério, claro, quase como um instinto explosivo.

Quem acompanha Altério em seus escritos na internet, sabe que ele, estrangeiro inquieto adquirindo sua natureza brasileira pouco a pouco, não se exime de dar sua perplexidade diante das situações da nossa atual sociedade, com que vem a deparar neste lado do Atlântico. Mural sujo registra, numa interrogação que se torna lentamente num aforismo: “—é possível o povo furtar-se às responsabilidades perante a serenidade com que aceita e vive o Golpe?”.

 Ébrio (“enche aqui o meu copo”), o ser que faz as breves narrativas (inclusive as dissertações são postos de narrar) faz uma escatológica imagem final, meio ao jeito do poeta e cineasta italiano Pier Paolo Pasolini: “imagino todos a defecar na ordem das coisas”. No entanto, sabe que este é um delírio utopista. “vejo que a realidade é outra”. No frigir dos ovos, pode-se perceber que, às vezes, fazer literatura pode ser experimentar coisas que a realidade não permite. “a foto do pequeno grande-artista e comovido de tanta liberdade num homem só.”

 

(Eron Duartew Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

 

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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