O Mundo Obscuro da Mente: um Jornalista

Quando o Corpo Grita é um pouco a autobiografia duma doença da mente

10/01/2018 07:16 Por Eron Duarte Fagundes
O Mundo Obscuro da Mente: um Jornalista

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Hiltor Mombach é um jornalista esportivo gaúcho. Tem um texto simples, de grande clareza. Mas, ao usar os vocábulos do dia a dia e as sintaxes habituais, Hiltor mostra sua habilidade em depurar a linguagem e de forma extremamente despojada expor suas ideias: de maneira fortemente jornalística, no melhor sentido.

Quem conhece e admira os textos futebolísticos de Hiltor, não sentirá ruptura na forma de construções linguísticas ao ler o primeiro livro do autor, Quando o corpo grita: síndrome do pânico (2017). Trata-se do mesmo escritor: direto, sem firulas estilísticas, trazendo do jornalismo diário para o jornalismo em livro (literatura, jornalismo literário) aquilo que o jornal tem de melhor, sua capacidade de expor o estado mais verdadeiro, mais autêntico da vida.

No entanto, Hiltor traz para seu primeiro livro um assunto abissal, não ligado diretamente aos gestos habituais do cotidiano e também longe do universo  que o absorve no jornal, o futebol e suas trivialidades técnicas, táticas, humanas. Embora a doença psíquica conhecida como síndrome do pânico esteja muito no cotidiano de muitas pessoas hoje em dia, os assuntos da mente puxam para poços que não estão na mesma superfície em que os atos de comer ou de deslocar-se pelas ruas estão, dentro daquilo que se possa chamar o comum dos dias. Hiltor, com o auxílio dos textos auxiliares dos psiquiatras José Facundo Oliveira e Gildo Katz, sabe adequar, com precisão, seu estilo de escrever ao espinhoso assunto que relata: nunca mistifica, pela linguagem, os elementos obscuros das crises do pânico; nem se rende a simplificações, equilibrando a natureza do texto e as possíveis anfractuosidades de seu tema.

Quando o corpo grita é um pouco a autobiografia duma doença da mente. A síndrome do pânico é a protagonista da cônica narrativa de Hiltor. O autor e a autopersonagem que se constrói são, assim, os instrumentos de que esta protagonista se vale para se converter numa espécie de linguagem. Retratando com clareza e sem condescendência seu longo corpo-a-corpo com a doença, a angústia e as necessidades da experiência e aprendizado que esta convivência traz, Hiltor mostra com sabedoria o resultado de sua experiência-aprendizado: “É curioso pensar sobre isto. Quando tudo vai bem costumamos dizer que temos o domínio da situação. Mas não temos. Quem tem o domínio é o cérebro. Não dominamos nada. Se os neurônios decidem entrar em greve não há nada que se possa fazer. Se decidem promover uma revolução, a revolução está feita.”

Na última frase do livro Hiltor se refere à esperança de que seus escritos sirvam para alguma coisa. Alude à questão pragmática de ajudar os que têm a doença? Ou seria somente esta serventia literária e humana para que o leitor desfrute um texto que o ajude a reflexionar sobre um assunto da mente que, atingindo-o ou não, possa melhorar seu conhecimento das coisas do homem? Talvez —no fundo, bem no fundo– os livros sirvam mesmo para um particular exercício da mente: um exercício de natureza estética. Pode ser uma forma não-pragmática de amar os livros; não é a única que pode ser usada no caso do livro de Hiltor, uma obra abertíssima em termos de público, mas é bom que haja esta forma, para que o jornalismo forte e preciso deste jornalista formado na cidade serrana de Garibaldi ultrapasse as fronteiras do efêmero, ainda que deste efêmero não se aparte.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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