Quando a Literatura Abraça o Cinema

Os Belos Dias de Aranjuez é uma delícia para o cultivo intelectual do espectador

20/06/2018 00:12 Por Eron Duarte Fagundes
Quando a Literatura Abraça o Cinema

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O alemão Wim Wenders, em Os belos dias de Aranjuez (Les beaux jours d’Aranjuez; 2016), rodado na França, com uma atmosfera estética de cinema francês, presta evidente tributo a uma das junções mais fortes entre cinema e literatura, Hiroshima, meu amor (1959), do francês Alain Resnais. Se Resnais se valia avidamente dos “poderes cinematográficos” do texto de Marguerite Duras, Wenders busca na escrita francesa do alemão Peter Handke os elementos de evasão para expor em imagens uma poética filosófica cuja ponte literatura-cinema é edificada palmo a palmo (ou plano a plano). É claro que Wenders não chega neste filme à estatura daquilo que Resnais fez em seu filme: o jogo verbal Wenders-Handke entre a memória e o amor, ou o homem e a mulher que tergiversam (a estaticidade muito bonita dos planos do jardim onde os diálogos escorrem) não devem permanecer com a mesma força com que as imagens e as palavras de Hiroshima, meu amor tem assombrado as décadas.

Mesmo assim, Os belos dias de Aranjuez é uma delícia para o cultivo intelectual do espectador. Com ares de quem seguidamente devaneia demais, deixando-se levar pelo fluir do texto, sem topar o pé ou o soalho como a experiência de Duras-Resnais, a realização de Wenders é sedutora graças à arte com que o cineasta exerce seu ofício de contar sagradamente uma história em imagens. Handke, o autor do original literário, escreveu em 1970 o romance O medo do goleiro diante do pênalti, que em 1971 foi filmado por Wenders: como se vê, esta associação entre o diretor de cinema e o escritor é antiga. Handke fez um filme maravilhoso, A mulher canhota (1978), onde a questão do casal também se instalava. Os belos dias de Aranjuez tem este aspecto de um rio oscilante, ora pleno de fascínio, ora à distância e entre neblina, mas constantemente tenso em sua proposta estética arrebatando o observador por sua beleza e sensibilidade. Surpreende um pouco que este filme de Wenders, difícil, raro, secreto e bastante oculto, tenha dado de cara com o público dos cinemas comerciais. O cineasta no fundo parece distante disto e torne enviesadamente ao amadorismo tensamente executado da fase inicial de sua obra.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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