Uma Aparência, Uma Transcendência

Quando a mineira Helena Morley, na década de 40 do século passado, levou ao prelo Minha vida de menina (1942), o agrupamento em volume de seus despretensiosos diários da primeira adolescência entre os anos de 1893 e 1895, começou-se a construir um dos mitos mais intrigantes da literatura brasileira

11/01/2019 22:13 Por Eron Duarte Fagundes
Uma Aparência, Uma Transcendência

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Quando a mineira Helena Morley, na década de 40 do século passado, levou ao prelo Minha vida de menina (1942), o agrupamento em volume de seus despretensiosos diários da primeira adolescência entre os anos de 1893 e 1895, começou-se a construir um dos mitos mais intrigantes da literatura brasileira. Como o texto, já na nota à 1ª edição, era francamente atribuído a uma menina de treze anos (considerada “imberbe” não-somente para a vida mas ainda para a literatura: e as duas coisas, clareza de observações de vida e um notável despojamento literário, coexistiam nos diários), levantou-se a possibilidade de uma mistificação de Helena adulta para com a ingenuidade do leitor. A nota da autora no introito do livro é clara: “Nesses escritos nenhuma alteração foi feita, além de pequenas correções e substituições de alguns nomes, poucos, por motivos fáceis de compreender.” No prefácio clássico de Alexandre Eulálio, escrito em 1959, a hipótese de não existir o tal diário e ser o livro uma reconstrução é aludida, mas é citada a palavra de Guimarães Rosa como defesa de um texto cuja qualidade supera até mesmo esta possível impostura: uma ficção de memória escrita como se fosse um diário vivo e apresentada ao público como um diário vivo de uma garotinha.

No ensaio Duas meninas (1997) o ensaísta brasileiro Roberto Schwarz, que faz um paralelo (diferenças e semelhanças, aproximações e oposições) entre o (aparentemente) elaboradíssimo Dom Casmurro (1900), de Machado de Assis, e o (aparentemente) solto relato diário de Helena, o analista confronta duas situações que tornariam a leitura dos diários (ou falsos diários) antagônicas: se o livro de Helena teve os diários da adolescente reordenado, em estrutura e prosa, pela Helena adulta (dizem que seu marido foi também um bom escritor, depois esquecido, Augusto Brant, e sua mão poderia ter sido fundamental no resultado estético a princípio negado pela composição), não haveria motivo para decepção, conservou-se a naturalidade e deu-se unidade artística ao conjunto; todavia, evoca Schwarz, se a invenção foi total, os originais nunca existiram, a situação narrativa da menina que escreve um diário é uma ficção de Helena (ou de seu marido), algo se perderia no sabor de ler. “Muito do que em espaço de registro parecia um dado vivo e curioso, num espaço de composição estrita fará figura tosca, pseudo-ingênua, de insuficiência artística”, anota Schwarz.

Seriam as coisas assim tão simplórias, tão ao sabor do substrato real? Nesta teia de suposições, tenho minha teoria: dada a absoluta espontaneidade do narrar, caso único na literatura brasileira (penso nos que se lhe aproximaram como linguagem familiar: José Lins do Rego e Manuel Antônio de Almeida, mas que distância de veracidade e, sim, profundidade!), cuido que os diários existiram; dadas as extraordinárias ligações que tornam o conjunto harmonioso, preciso e cheio de referências sociais e históricas, estes textos de menina certamente foram retrabalhados na década de 40 (por Helena, por seu marido, seja lá quem for o coautor com esta garota vivaz que, ao cabo da leitura, se converte numa das personagens mais cativantes de nossas letras). De qualquer maneira, mesmo que aquilo que há de documento espontâneo aparente em Minha vida de menina possa ser uma miragem (a inexistência dos diários originais), para o leitor isento o livro deve inevitavelmente ser lido como um romance e como um  diário e como um romance sob a forma de diário; a verdade literária permanece intacta qualquer que seja a sua situação real, ainda que, como diz a nota à 1ª edição, o texto daquela rapariguinha de treze anos tenha chegado até nós sem alterações; neste caso, a pequena Helena é, sem favor, um dos gênios de nossa literatura, aquele que mais fundamente penetrou nas possibilidades orais de nossa prosa literária. Obra de um rigor exemplar na captação do espírito linguístico interiorano, Minha vida de menina pode ser mais uma comprovação de que o gênio nasce do acaso e aquilo que aparece com minúcia de detalhes (um estudo) vem de observações livres e gratuitas duma alma.

Sempre se disse em literatura que as prosas de linguagem rebuscada (Guimarães Rosa, por exemplo) são difíceis de traduzir para outra língua, chegando às vezes a ser impraticáveis (Finnegans wake, 1939, do irlandês James Joyce). Mas Minha vida de menina, com suas minúcias de aproximação à linguagem coloquial, vem provar que transpor a simplicidade linguística para outro idioma também pode ser problemático; não sei se Elizabeth Bishop alcançou um rendimento de cem por cento ao evocar o mundo verbal da Diamantina do fim do século XIX para o inglês corrente nos anos 40 do século XX na América do Norte.

Por fim, outra aproximação. O alagoano Graciliano Ramos e a mineira Helena Morley. Sei que a dureza sintática de Graciliano difere muito da lassidão da prosa de Helena. Ocorre que Graciliano voltou a seus primeiros anos em Infância (1945), que é um livro de memórias e cuja estrutura fragmentada é mais evocativa e menos narrativa que o texto de Helena. Lá pelas tantas em suas memórias Graciliano refere a dificuldade de pronunciar o nome de Samuel Smiles, um escritor presente na seleta da virada do século XIX para o século XX, época infância do autor. Em seus diários Helena cita alguns livros de Samuel Smiles que era obrigada a ler: as referências de Helena a este escritor são tão desairosas quanto as de Graciliano. Pelo visto, Smiles, um nome que hoje nada diz, foi alguma leitura escolar obrigatória naqueles recuados anos das infâncias de Helena e Graciliano. Não serviu para nada o sr. Smiles, senão para que Helena e Graciliano escrevessem como seus antípodas.

Como ocorria nos livros de ficção da inglesa Jane Austen, o único livro da brasileira de origem britânica Helena Morley traz uma aparência e uma transcendência: parece uma crônica de moça, circunscrita a um círculo geográfico e familiar, e transcende o acanhamento do meio, expandindo seus conceitos e suas idéias inicialmente limitadas. Minha vida de menina tem tido uma vida marginal nos estudos literários brasileiros, é inevitável: a ostensiva ingenuidade de seu texto é, por baixo do pano, provocativa e não teria mesmo como ser levada a sério numa literatura voltada para a grandiloquência estética. Ainda bem que nestes tempos relativos os tabus se movem e podem surgir análises marginais que visam sem pudor ao centro visível. É por aí que Minha vida de menina poderá estourar como realmente é: o mais belo retrato de interior de nossa literatura.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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