Autorretrato Em Relevo Disfarçado

Recordações da casa dos mortos (Zapiski iz Mertovo Doma; 1862) foi a antessala dos grandes romances do russo Fiódor M. Dostoiévski

26/06/2018 23:58 Por Eron Duarte Fagundes
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Recordações da casa dos mortos (Zapiski iz Mertovo Doma; 1862) foi a antessala dos grandes romances do russo Fiódor M. Dostoievski, iniciada com Crime e castigo (1966) e culminada com a maior narrativa de ficção da literatura ocidental, Os irmãos Karamazov (1880), aquele livro de consciência que não deixa nenhuma consciência indiferente a seus tortuosos caminhos mentais. Recordações da casa dos mortos é um romance que tem a forma de uma autobiografia; não é um romance autobiográfico nem uma autobiografia romanceada; Dostoievski na verdade conta de maneira documental e séria suas experiências no presídio russo, mas o que seria uma autobiografia (e o é de fato, ou de substrato) se converte por um detalhe da introdução numa aparente ficção, no pórtico do livro alguém como se fosse o escritor ou o editor atribui os escritos a Alexander Petrovitch, que seria o eu ficcional ou o espelho de Dostoiveski, que talvez não quisesse expor-se diretamente revelando-se numa autobiografia que hoje se desnuda como a verdade duma fase crucial da vida  do grande artista.

As experiências-limite da vida da prisão transformaram o homem Dostoievski no espírito devastador de Os possessos (1872) e O idiota (1869). Sua transcendência religiosa, suas perplexidades diante da existência vêm certamente daquele universo perverso que habita as páginas de Recordações da casa dos mortos. É o mais veraz e o mais documentário dos textos incrongruentemente geniais de Dostoievski; mas não deixa igualmente de conter aquele grão de loucura que transtorna cada frase escrita pelo autor russo.

Recordações da casa dos mortos é o precursor da utilização clara da base de dados pessoal levada à ficção por escritores; o norte-americano Henry Miller levou às últimas conseqüências este método; um escritor na prisão leva-nos a Graciliano Ramos e seu Memórias do cárcere (1953), desventuras vividas por Graciliano nas prisões do Estado Novo Brasileiro, aliás o título das memórias do autor brasileiro são uma transcrição ipsis litteris de outras memórias de presídio escritas pelo português Camilo Castelo Branco pela mesma época em que Dostoievski publicava na Rússia seu texto: Memórias  do cárcere de Camilo é também de 1862.

 

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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