Uma Artista dos Demônios

O triunfo da vontade (Triumph des Villens; 1936), documentário rodado por Leni Riefenstahl sob encomenda do governo alemão nazista, é uma das películas esteticamente mais criativas e pessoais feitas na década de 30

09/10/2018 00:11 Por Eron Duarte Fagundes
Uma Artista dos Demônios

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Quem diria! Um dos mais belos filmes já feitos é um panegírico de Adolf Hitler, o criador do mundo nazista. O triunfo da vontade (Triumph des Villens; 1936), documentário rodado por Leni Riefenstahl sob encomenda do  governo alemão nazista, é uma das películas esteticamente mais criativas e pessoais feitas na década de 30; poucos filmes daqueles anos logram sobreviver ainda hoje com tanta bravura como se fosse um trabalho do futuro, o que demonstra a eterna dualidade de sua realizadora.

Riefenstahl é uma autêntica mulher de cinema. Ainda que rode aparentemente um documentário e uma descarada propaganda política, suas opções de plano cinematográfico, sua forma de iluminar a cena e suas articulações de montagem constroem um estilo fílmico inconfundível em que a apurada plástica da realização ajuda a compor um retrato assustador da personagem histórica de Hitler. Nota-se que Riefenstahl acredita no Führer e a personalidade da cineasta se identifica com a do chefe do Reich alemão, criando entre ambos um espaço do demônio alemão; Riefenstahl foi um dos poucos artistas de cinema que então conseguiam fugir à influência devastadora do expressionismo, criando uma linguagem tão sombria e perversa quanto a de Fritz Lang mas com uma pomposidade diferente.

As paradas gigantescas e os discursos marcadamente encenados são dispostos de maneira oblíqua e impositiva em O triunfo da vontade, que é o triunfo do cinema a despeito do naufrágio político. O nazismo foi soterrado pela história; e, como a história é contada pelos vencedores, o talento da nazista Riefenstahl permaneceu muito tempo no limbo e ainda hoje é complicado exaltá-lo. No admirável filme de Ray Muller Leni Riefenstahl, a deusa imperfeita (1993) uma anciã de noventa anos é confrontada com seus fantasmas da juventude; mas o espectador não deixará de espantar-se com a notável lucidez duma artista nonagenária que nos assombra. Diante de O triunfo da vontade, a reação é idêntica: podemos envergonhar-nos, mas nestas imagens cheias de esplendor o nazismo invade nosso sangue.

Arte e política, ou a forma como a política interfere na arte, muitas vezes destruindo-a. Lembro que o escritor francês Louis Ferdinand Celine, em face de seu antissemitismo, teve sua arte vítima de preconceito e sua notável estética olhada com desconfiança. Riefenstahl, falecida em 2003, é do mesmo time.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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