Melodia, ou Percepção da Verdade

O inglês Edward Morgan Forster talvez seja o mais anacrônico dos grandes literatos dos primeiros anos deste século

10/12/2018 15:00 Por Eron Duarte Fagundes
Melodia, ou Percepção da Verdade

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Pré-escrito: O texto que segue, tratando do romance Howards End, de E.M. Forster, um de meus autores de cabeceira, foi escrito em 1993. O mundo e eu éramos diferentes. O texto de 93 é uma leitura antiga mas que ainda pode definir-me, com todos os tumultos que a passagem dos anos podem trazer a um confronto de ideia e linguagem. Cabe aqui a advertência que Machado de Assis, republicando A mão e a luva (1874) mais de trinta anos depois de sua escrita, fez a seu leitor: “Se este (o autor) não lhe daria agora a mesma feição, é certo que lha deu outrora, e, ao cabo, tudo pode servir a definir a mesma pessoa.”

“Melodia, ou Percepção da Verdade”

 

O inglês Edward Morgan Forster talvez seja o mais anacrônico dos grandes literatos dos primeiros anos deste século. Sem deixar de ser um ficcionista que mexe agudamente com os nervos estéticos do leitor, graças a uma prosa soberba, rigorosa e inventiva, trespassada de sentimentos poéticos raros, Forster é um romancista que, por conhecer admiravelmente as limitações do gênero, busca sempre uma outra coisa para o romance, ainda que nunca desdenhe das limitações clássicas da narrativa romanesca. Em seu verdadeiro rosário crítico que é Aspectos do romance Forster é irônico, melancólico e genial ao definir que o romance contará sempre uma história, sendo este elemento o máximo divisor entre todos os romances; e reconhece que ele, Forster, gostaria que não fosse assim, que pudesse ser algo diferente —“melodia, ou percepção da verdade, e não esta baixa forma atávica”.

Depois de Passagem para a Índia (1924) Forster não escreveu novas obras de ficção, embora tenha tido ainda uma longa vida, pois morreu  em 1970. Dedicou-se apenas a dar aulas e a redigir crítica literária. Afinal, que sentido fariam suas narrativas refinadamente conservadoras num tempo dominado pela voracidade das imagens visuais? Já nos primeiros anos de sua carreira, Forster esgotou o que tinha a declarar por meio de sua escritura ultraclássica, quase renascentista em sua pureza de ideia e verbo.

À mesma época em que Forster colocava suas ardentes páginas de literatura anacrônica, transitavam pelas ruas deste mundo as figuras revolucionárias de James Joyce e Virginia Woolf. O paradoxal no estilo de Forster é que, sem embargo de sua forma gelada e britânica de escrever, ele tem o dom mágico que alça sua ficção às vertigens emocionais de, por exemplo, D.H. Lawrence.

Estas vertigens chegam a degraus extremamente elaborados em Howards End (1910), onde topamos os achados e reticências do espírito literário forsteriano. É curioso observar como o calculado formalismo inglês de Forster vai cedendo espaço a fraturas de magia verbal que, sem nunca se aproximarem do barroquismo de um Dostoievski, fazem o cérebro do observador delirar. Turvo e bêbado, é o resultado final de um texto aparentemente fino e cerebral.

Howards End trata dum tema social. Retrata a passagem duma sociedade pré-industrial para uma sociedade industrial. A burguesia do campo, da fixação na terra, com ares de aristocracia feudal, vai ser substituída pela burguesia citadina, mutante. A visão social de Forster não é agreste, nem socialista. Adota os pudores literários de antes do marxismo. O idealismo humanitário de Helen, uma das duas irmãs que formam o miolo do livro, é mais estético —o capítulo que mostra suas emoções diante da Quinta Sinfonia de Beethoven— do que propriamente sociológico.

Forster faz de Howards End o ponto mais luminoso de sua vida de esteta. Tudo é muito inteligente, sensível. Em nenhum momento, ainda quando seu texto se acerca dos espinhos da pobreza material de seu obscuro Leonard Bast, este nível decai. Quiçá o trecho mais característico desta nobreza estilística seja o aludido capítulo da Quinta Sinfonia de Beethoven, onde a poesia nervosa e instável dá à descrição musical uma aparência de campo depois da guerra, ou, para usar uma metáfora do próprio Forster em suas críticas, uma sala vazia passada uma festa de crianças. Os duendes da música de Beethoven saltam das palavras de Forster com ímpetos inesperados; Forster investe contra os lógicos adotando uma opção mágica de arte, mesmo quando esta arte se reveste de ciência e inteligência.

Oscilando entre a complexidade de suas intenções e a natureza depurada mas simples de seu texto, Howards End permite-nos alguns orgasmos literários de que, nos tempos que correm, andamos muito afastados. Afinidade com a inteligência literária, no melhor sentido da expressão, é o que abunda nesta obra-prima de Forster, um dos menos citados nos compêndios e mais brilhantes criadores da literatura contemporânea. Seu caso equipara-se ao do brasileiro José Geraldo Vieira e Howards End é uma narrativa tão exuberante quanto A ladeira da memória (1950), de José Geraldo.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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