A Paixao Sintatica

O trono da rainha Jinga eh autenticamente uma viagem ao Rio antigo ja a partir de sua criativa linguagem

22/04/2020 14:17 Por Eron Duarte Fagundes
A Paixao Sintatica

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O trono da rainha Jinga (1999), o primeiro livro em que o ficcionista brasileiro Alberto Mussa mergulha em séculos passados da cidade do Rio de Janeiro para, como ele mesmo diz, buscar a identidade do local em que vive observando os crimes que nela as pessoas cometeram, tem um corte policial. Mussa brinca um pouco com isso na Nota prévia para a reedição de 2007. Mas não é uma novela policial em seu sentido clássico, no sentido em que o são, por exemplo, as histórias do belga Georges Simenon. No Posfácio do autor, na mesma edição, Mussa diz que não se trata dum romance histórico. Na verdade, seu corte histórico é da mesma natureza de seu corte policial: age nas superfícies de sua estrutura. Qual é a base, pois, de sua estrutura romanesca? O trono da rainha Jinga é uma aventura sintática.

Na aludida Nota prévia Mussa diz que está entre aqueles que não levam a literatura a sério, aqueles que têm outras coisas a fazer. Talvez. Mas seu texto é uma literatura séria. A seriedade vem do rigor de sua construção verbal, especialmente a construção sintática, a maneira precisa e pessoal (ainda que seus cheiros antigos transpareçam como um nascimento de tantas leituras quinhentistas ou seiscentistas) de que Mussa se vale para contar sua história. A seriedade é brincalhona, é verdade; mas quem disse que em estética literária a brincadeira estorva a seriedade? Seriedade de princípio, brincadeira de meios.

Sim: acompanhamos, nos capítulos entregues a diversas vozes (personagens) envolvidas ou espectadores nos crimes históricos cometidos em meios africanos no Brasil do século XVI, a sucessão de fatos que podem levar a alguma tensão histórica, social ou criminal. Alguma tensão. Porque a tensão básica, aquela que pode desviar-nos das aparências e embrenhar-nos num fascínio de linguagem, é a tensão dos cruzamentos sintáticos, feitos com tanta simplicidade e no entanto depuração. “Cheguei lá furiosa, quando atropelei a mucama petulante que me atendeu à porta e tive o desprazer de deparar uma autêntica assembleia reunida no salão: o senhor Antunes, dois meirinhos, um tabelião (ou escrivão) e o próprio ouvidor-geral —além de Cristóvão, é claro, folgado como sempre, de cócoras no chão, com os pés descalços sobre um riquíssimo tapete.” O trono da rainha Jinga é autenticamente uma viagem ao Rio antigo já a partir de sua criativa linguagem.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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