Loucuras, Desejos e Frustracoes
Talvez o centro dos achados narrativos de Betty Blue seja a interpreta??o de Beatrice Dalle como Betty
Uma das cenas mais comentadas do cinema nos anos 80 foi a de abertura de Betty Blue (37º2 le matin; 1986), o mais referido dos filmes realizados pelo francês Jean-Jacques Beineix. Logo após os créditos, um plano fixo um pouco à distância (um plano médio) observa um casal nu, numa cama, que está no começo dum ato sexual; este plano imóvel dura algum tempo na tela, o tempo suficiente para o casal terminar sua transa, vemos o enleio dos corpos, ouvimos o crescer dos gemidos, especialmente os da mulher. Antes que o ato chegue a seu fim, um movimento da lente da câmara faz o olho aproximar-se dos corpos dos amantes, ouve-se o espasmo do grito final da relação de sexo. Dizem que os intérpretes Jean-Hughes Anglade e Béatrice Dalle (ambos não muito conhecidos do público daqui, ela então começando no cinema) transaram diante das câmaras; a direção de Beineix documenta um sexo ardente, mas não filma a penetração, não chega às raias do sexo explícito de O império dos sentidos (1976), do japonês Nagisa Oshima (em outras sequências, longe das transas, Beineix não tem pudores de mostrar os fartos pelos pubianos de Béatrice e a genitália à mostra de Jean-Hughes). A sequência que sucede a esta inicial enquadra o homem a bordo dum caminhão, numa estrada, urrando do prazer de viver: é a alegria exultante pós-coito.
Betty Blue é uma aventura de pós-modernidade do cinema da década de 80. Não se liga propriamente ao rigor clássico ou espiritual do cinema francês mais estimado. Tem um calor de imagem superficial mas necessariamente forte: algumas obsessões sexuais, consideradas vulgares por muitos, se revelam com o passar dos anos ainda mais densas e perturbadoras na capacidade de mexer com certos nervos emocionais de nossas volúpias mais estranhas e obscuras. Nascido do cinema publicitário, Beineix soube traduzir, neste filme, em senso cinematográfico este seu diário de imagens que apanha uma personagem-limite, Betty Blue, e a escava de maneira mimética.
Talvez o centro dos achados narrativos de Betty Blue seja a interpretação de Béatrice Dalle como Betty. E, dentro de sua interpretação, um realce particular para os lábios da intérprete. Poucas vezes uns lábios expressaram tão bem a vulgaridade do desejo: é uma entrega voluptuosa do despudor, da carnalidade pura. Certo: Béatrice não pode equiparar-se às grandes atrizes francesas, ela torna todas as regras de interpretação triviais, mas em Betty Blue temos uma das mais extraordinárias interpretações da história do cinema: Béatrice (que depois, em A vingança de uma mulher, 1991, de Jacques Doillon, contracenando com Isabelle Huppert, exacerbaria na vulgaridade de modos) dá ao observador um êxtase, o prazer de devorá-la com os olhos.
Betty Blue é uma criatura de grandeza trágica. Beineix expõe os desejos dela: fazer com que seu homem tenha um manuscrito de livro publicado por uma editora, ter um filho com seu homem. Dos desejos, a frustração: ela não logra ver o livro publicado, não chega a engravidar (apesar de um rebate falso). Desejos frustrados fazem as loucuras de sua mente aproximar-se de outras loucuras, a demência mesma, a ausência de viver, a morte: Betty enlouquece, arranca desesperada um de seus próprios olhos. Mergulhando no desespero de sua amada, só resta ao homem (cuja voz off aparece como narrador da história) ir ao hospital onde ela está manietada a uma cama, acabar com tudo, asfixiando-a sob um travesseiro.
P.S.: Visto pela primeira vez no Brasil, em novembro de 1986, no FESTRIO, na cidade do Rio de Janeiro, Betty Blue foi relançado agora, em cópia remasterizada, para que as novas gerações possam entender por que ele se tornou um filme de culto para uma expressiva parte dos espectadores que viam cinema na década de 80 do século passado.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro Uma vida nos cinemas, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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