O Senhor Hammett

O maior escritor argentino (o mais profundo e com mais senso literario) Ernesto Sabato nao poupa palavras em seus ensaios de O Escritor e seus Fantasmas (1963)

19/07/2026 03:05 Por Eron Duarte Fagundes
O Senhor Hammett

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Uma leitura antiga. Feita na juventude. E revisitada tantas vezes. O maior escritor argentino (o mais profundo e com mais senso literário) Ernesto Sabato não poupa palavras em seus ensaios de O escritor e seus fantasmas (1963). “Nenhum criador realmente grande se deteve nesse purismo pretensioso. Pense-se em Faulkner. Diz-se que não pratica com rigor o objetivismo, citam-se suas ‘falhas’ nos tratados desses acadêmicos, compara-se sua obra com a de um certo senhor Hammett, muito bem. Deixando-se de lado o detalhe de que toda a obra de Hammett não equivale a um só conto de Faulkner, não entendem, além disso, que essas ‘falhas’ são precisamente suas amplitudes, suas forças, sua vitalidade.” Tardei em descobrir o senhor Hammett, primeiro foi através do cinema, do filme de John Huston, mas cinema é uma outra coisa, depois deparei com o livro, agora o releio e concordo com Sabato descordando de Sabato.

O senhor Hammett é o americano Dashiell Hammett, romancista policial que lançou as bases das narrativas da série negra, na literatura e desaguando no cinema. O romance deflagrador desta febre estética é O falcão maltês (The maltese falcon; 1929). Sabato e eu sabemos: o domínio de expressão narrativa de Hammett está longe da inventividade literária de Faulkner; perde longe. Mas é possível descartar sua correção literária (ainda que trivial), sua importância histórica (ainda que os anos a defasem)? Não é um livro destituído de um certo fascínio em certas curvas ao mesmo tempo em que os habituados tiques de narrar de ficção facilmente clássica, está longe de ser uma obra literariamente marcante, o filme de Huston tem mais importância para o cinema que o livro de Hammett para o universo literário, mas ambos são ícones culturais americanos indesmentíveis, há momentos em que os truques “de encenação” de Hammett se acoplam às passagens do filme de Huston.

Passadas as décadas, torna-se quase inviável ler O falcão maltês sem que alguns neurônios estejam debruçados sobre o que se viu ou se lembra do filme.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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