As Confusoes Mentais e a Estetica Apocaliptica

No Globo de Prata traz os aspectos de narrativa cinematografica inconclusa

19/07/2026 03:02 Por Eron Duarte Fagundes
As Confusoes Mentais e a Estetica Apocaliptica

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Uma imagem possível para o cinema do polonês Andrzej Zulawski é a do sujeito que põe, em alta velocidade, um veículo a descer um morro quase vertical e deixa que a velocidade e a descida desgovernem sua direção. Zulawski é um experimentador alucinado do cinema. Entre 1976 e 1977 o cineasta e sua equipe se puseram a filmar uma aventura visual definida como ficção científica mas que nas mãos do realizador, se sabia, seria outra coisa que não caberia nos gêneros uniformes do cinema. O filme tinha título: No globo de prata (Na srebrmym globe; 1988). 1988 foi o ano em que o que sobrou do filme pôde chegar aos espectadores: a alguns espectadores. Aconteceu que na primavera de 1977 o novo ministro da cultura, Janusz Wilhelmi, começou uma caça às bruxas em nome do totalitarismo que começava a impor-se no país; Zulawski mandou-se para a França, com armas e bagagens, onde antes fizera O importante é amar (1874) e faria Possessão (1881); os negativos de No globo de prata ficaram retidos na Polônia; com os recuos do regime, no fim da década de 80, Zulawski volta a seu país e, vasculhando o que encontrou dos pedaços de seu antigo filme, monta um filme com as imagens arquivadas. O resultado é o que passou à posteridade. Como aconteceu com vários filmes do americano Orson Welles, No globo de prata traz os aspectos de narrativa cinematográfica inconclusa, ressentindo-se desta espécie de fragmentação; e, paradoxalmente, é esta fragmentária visão de mundo, extremamente demencial, que em No globo de prata topa uma ousadia formal de grande beleza.

Longe dos signos surrealistas de Roman Polanski e ainda mais à distância do arcabouço cartesiano de Andrzej Wajda, para referir dois grandes poloneses, seus contemporâneos, Zulawski propõe em No globo de prata um delírio constante, com a câmara e os atores. A câmara parece devorar os cenários inóspitos das montanhas do Cáucaso. E é esta câmara que avança sobre os atores em ângulos e movimentos repuxados, instando com eles para dialogarem diretamente com a câmara.

Os seres estranhos, os dizeres esquisitos, a hipnose demente da encenação conduzem No globo de prata a situações quase insuportáveis para os espetadores habituais. Há referências bíblicas com a reconstituição duma crucificação que traz, ou refaz, dizeres do cristianismo histórico. Esta aproximação a uma Bíblia iconoclasta é que aproxima o filme dum apocalipse estético.

Inconcluso, desajeitado, No globo de prata é o ataque selvagem do tempo de Zulawski contra o tempo do observador acomodado numa poltrona de cinema ou em sua casa. O veículo se desgoverna na descida do morro. E assim ele nos mostra que fora desta corrida delirante para o nada não existe salvação para a criatividade cinematográfica.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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