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Os Filmes Impossíveis: O Baile

Podia parecer impossível fazer um filme como O Baile. Nunca houve, antes ou depois, uma ousadia semelhante

24/11/2014 14:23 Por Ely Azeredo
Os Filmes Impossíveis: O Baile

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Ettore Scola assistiu ao espetáculo "Le Bal" (O Baile), de Jean-Claude Penchenat, no Théâtre du Campagnol, Paris, em 1977. Até reunir condições para levar a ideia-base de Penchenat ao Cinema não pensou em outra coisa. "Eu faria qualquer coisa para filmar a peça de Penchenat porque é um espetáculo sem palavras. Nesses tempos em que todo mundo fala demais, em que rádios e televisões nos tonteiam com suas conversas ininterruptas, acho que era necessário provar o quanto a palavra é inútil. A música, os gestos, o olhar, a maneira de vestir e de dançar são muito mais eloquentes do que qualquer discurso". O cineasta italiano via uma dificuldade. "Não estamos mais habituados a valorizar esses sinais, a prestar atenção aos outros. E nos embriagamos com frases-feitas, esquecendo que o subentendido tem mais valor do que tudo que foi dito, porque exige disponibilidade e inteligências".

Encontrou na peça três temas que mais o obcecavam. Acima de tudo, o tempo. O tempo que passa - as ilusões que morrem a cada dia, enquanto outras nascem.

Em segundo lugar, a solidão, porque o Cinema reserva muito mais atenção e carinho aos solitários do que aos que levam uma "boa vida".

E a História. Mas não a história oficial que ninguém vê, como um tapete que se desenrola atrás de nós - e sim a história individual que alimenta a oficial.

"Entre meus amores" - disse Scola - "está, claro, o cinema francês anterior à Segunda Guerra Mundial - um cinema popular no sentido legítimo da palavra... O cinema de Renoir, de Carné... Durante a guerra chegavam também às telas a América de Fred Astaire, do jazz de Louis Armstrong... Essa música tinha para nós o gosto da liberdade que fora sufocada pelo fascismo."

Entre os modelos dos personagens de "O Baile" Scola está Jean Gabin, em homenagem aquele período que incluiu várias personificações do herói do romantismo "noir". Como Pepe le Moko, o criminoso generoso, mas brutal, que o amor leva ao sacrifício. Sem esquecer Danielle Darrieux e Victor Francen. Um casal que reflete essas figuras de elite vai ao salão de danças como quem faz um safári social - para ver como o povo se diverte; com um ar compreensivo, mas ligeiramente entediado. O salão de baile é visto como uma metáfora da vida, um lugar onde as pessoas se encontram e se separam...

Um filme com trilha sonora exclusivamente musical, sem palavras e com ambição de refletir nos limites de um salão de dança quase meio século da História? Para quem não conhece Ettore Scola poderia parecer um projeto para impressionar a mídia. Em verdade, ele projetou um filme voltado em primeiro lugar para a memória musical e visual. Para a receptividade não intelectualizada. Seu roteiro propôs ao elenco, em vez de diálogos, uma corrente de pensamento, um guia de comportamento. Com pleno êxito: sem atores de renome, conseguiu impecável nível de interpretação.

Scola, que (como Federico Fellini) foi cartunista profissional quando jovem, desenhou todos os personagens antes começar o trabalho de caracterização do elenco. Conseguiu uma "fotogenia" dramática que pode ser comparada ao melhor de Fellini nesse aspecto: à humanidade multifacetada de "Amarcord", ao livre traçado humorístico de "E la nave va". Numa época de tanta pressão da imagem televisiva sobre o Cinema, "O Baile" representa um desabafo antinaturalístico, uma revalorização do grafismo fisionômico que representava grande parte da força do cinema silencioso. Esse "retorno" se processa com modernidade: os atores se apresentam com impressionante clareza de expressão, mas deixando margem a uma aura de mistério que cabe a cada espectador desvendar. Terão maior prazer na descoberta os cinéfilos conhecedores da produção cinematográfica francesa das décadas de 30 a 80.

É uma balada para a memória, composta com a cumplicidade de mais de setenta músicas - numa diversidade que vai de "A Marselhesa" a "Mambo", a "Top Hat ("O picolino") e ao nosso "Aquarela do Brasil".

Podia parecer impossível fazer um filme como "O Baile". Nunca houve, antes ou depois, uma ousadia semelhante.

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Sobre o Colunista:

Ely Azeredo

Ely Azeredo

Ely Azeredo é jornalista, crítico e professor de cinema. Escreve no caderno "RioShow" (O Globo) e no blog de cultura cinematográfica cujo acesso é: elyazeredo.com. Livros publicados: "Infinito Cinema", "Olhar Crítico: 50 Anos de Cinema Brasileiro" e "Jorge Ileli - O Suspense de Viver". Participou de edições sobre Hitchcock, Bergman e outros cineastas. Integrou o júri do Festival de Berlim. Criou o primeiro Cinema de Arte (RJ) e a revista "Filme Cultura".

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