O Discurso Literario Esta? na Cidade?
O Discurso e a Cidade (1993), um conjunto de ensaios que visa a uma unidade de pensamento litero-estetico a partir de pontos-de-vista d?spares, uma obra central na producao de um dos mais prestigiados criticos brasileiros, Antonio Candido
O discurso e a cidade (1993), um conjunto de ensaios que visa a uma unidade de pensamento lítero-estético a partir de pontos-de-vista díspares, é uma obra central na produção de um dos mais prestigiados críticos brasileiros, Antonio Candido. O volume abre justamente com um dos mais conhecidos estudos de Candido: “Dialética da malandragem” é uma fina lente literária que mergulha no universo quase único do único romance escrito por Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um sargento de milícias (1853). Candido começa sua análise pela retrospectiva histórica, iniciando-a pela visão de José Verissimo, que, no fim do século XIX, contemporâneo do naturalismo-realismo, meio no instintivo-primitivo (em linguagem, personagens e assuntos), via em Manuel Antônio um antecipador do realismo que, sem concessões ao gosto ultrarromântico brasileiro da primeira metade do século retrasado, ia contra a corrente de suas décadas. Candido chega aos postulados de Mário de Andrade, que via o picaresco em Manuel Antônio (o próprio Mário se inspiraria muito no picaresco que observava no ancestral novecentista, talvez mais próximo dos modernistas de 1922 que dos realistas como Raul Pompeia ou Machado de Assis) e depois Candido se interessa pelas posições contrapontísticas de Darcy Damasceno e desbanca o retorno de Josué Montello à tese dos pícaros espanhóis. Candido faz toda esta arguta navegação histórica, como um descobridor, para erigir a ideia que já está anunciada no título do ensaio: “Digamos que Leonardo não é um pícaro, saído da tradição espanhola; mas o primeiro grande malandro que entra na novelística brasileira, vindo duma tradição quase folclórica e correspondendo, mais do que se costuma dizer, a certa atmosfera cômica e popularesca de seu tempo, no Brasil. Malandro que seria elevado à categoria de símbolo por Mário de Andrade em Macunaíma e que Manuel Antônio com certeza plasmou espontaneamente, ao aderir com a inteligência e a afetividade ao tom popular das histórias que, segundo a tradição, ouviu de um companheiro de jornal, antigo sargento comandado pelo major Vidigal de verdade.” Manuel Antônio de Almeida, com seu romance, seria o mais brasileiro, porque o embrião de tudo, entre os escritores brasileiros; mas em qual cidade se passa o discurso? O mais brasileiro? O mais carioca? Um regionalista do centro?
Ao longo de O discurso e a cidade, Candido observa o realismo de Émile Zola, Giovanni Verga e Aluísio Azevedo, todos já numa fase pensada do realismo, longe dos instintos pré-literários de Manuel Antônio. Depois vai aos pararealistas, como Franz Kafka e Dino Buzzatti, que o crítico define quase como uma abstração intemporal; “Onde decorre a ação? Num país sem nome, impossível de localizar, como nos contos populares, a despeito do corte europeu dos usos e costumes, assim como do substrato italiano, sendo que a única referência geográfica precisa é, ocasionalmente, à Holanda (e suas tulipas), aonde a namorada de Drogo anuncia que vai passear. Aliás, de certo modo nem lugar há propriamente dito, mas apenas uma vaga cidade sem corpo e o sítio fundamental da Fortaleza Bastiani, que fica a uma distância elástica, ninguém sabe direito onde.”
O discurso e a cidade é um mundo literário. É um discurso em torno das multiplicidades de discursos da literatura brasileira. Usa o singular (“discurso”) num sentido plural (“discursos”), um efeito metonímico, quase num esforço de unidade crítica. Vai à poesia hoje quase esquecida de Jorge de Sena: “Usando apenas três prováveis verbos (‘lambidando’, ‘se esporem’, ‘canta’) e compondo por enumeração, Jorge de Sena descartou ao máximo os nexos sintáticos, que o poema de Lewis Carroll mantém normalmente; e assim aumentou o fechamento semântico do texto. Este pode ter significados escondidos numa língua convencional, mas o leitor só percebe algumas palavras de cunho grego e latino, alteradas ou não, e vagas sugestões eróticas.”
Ao dar com a cidade literária de Antonio Candido, o leitor vai encontrar, entre prazeres e contrapontos, aquilo que o ensaísta diz do poema “Louvação da tarde”, de Mário de Andrade, como um reflexo de sua crítica: “É um admirável monólogo em tom de conversa fiada, onde o tempo narrativo equivale ao tempo narrado, desdobrando-se enquanto o ensinar do discurso vai indo de automóvel por uma estrada ao pôr do sol”. Como queria o crítico de cinema Jean-Claude Bernardet, toda crítica de uma obra de arte é quase uma autobiografia.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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