Estreia do Ely: Apocalipse Now

O jornalista, escritor e professor de cinema Ely Azeredo é o mais recente colunista do DVD Magazine. O mestre sempre comentará os filmes "impossíveis" de terem sido realizados. Pra começar, Apocalipse Now.

16/09/2014 10:05 Por Ely Azeredo
Estreia do Ely: Apocalipse Now

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Apocalypse Now (1979) não poderia ser feito. Francis Ford Coppola (O Poderoso Chefão) enfrentou o desafio sabendo que seria uma loucura. Mas não poderia prever o grau de loucura! Multimilionário depois dos recordes de bilheteria de O Poderoso Chefão (partes 1 e 2), o diretor-produtor arriscaria 18 milhões de dólares de seu patrimônio e empréstimos bancários no longuíssima-metragem - réplica do horror que foi a Guerra do Vietnam - com roteiro inspirado em obra literária desafiadora, Heart of Darkness, de Joseph Conrad, e levando na equipe um "monstro sagrado" criador de casos, Marlon Brando, o maior ator da História do Cinema.

Orçado em 13 milhões de dólares, o risco saltou para cerca de 30 milhões quando - nas selvas das Filipinas, que representavam as do Vietnam e do Camboja - Coppola lançou um S.O.S. à United Artists. Isso depois de hipotecar a maioria de suas propriedades e os royalties futuros de O Poderoso Chefão. Com o roteirista John Milius ele adaptara Heart of Darkness, transferindo a ação da África, vítima do colonialismo escravagista, para o conflito imperialista no Vietnam. O protagonista da obra original empreendia penosa viagem pela selva africana a fim de localizar Kurtz, homem do comércio de marfim, que estaria doente ou louco. Ao longo da missão, o protagonista vai sofrendo abalos anímicos em contato com as ignomínias da situação do Continente Negro, e é profundamente envolvido pelo fascínio da vida selvagem. Quando localizado, Kurtz (Marlon Brando) não é mais a figura  clássica do "caçador de marfim". Vive como uma divindade possuída pelas forças da natureza, idolatrado pelos indígenas.

A viagem no original de Conrad  é mais que uma aventura. É uma trajetória existencial. Essas características permanecem na adaptação cinematográfica, apesar da transformação nas atividades dos personagens e do salto a anos mais próximos e ao Sudeste Asiático. O habitat da região, "trabalhado" por bombardeios pesados, armas de destruição ambiental, massacres de inocentes, drogas, tornou-se um " antimodelo" da natureza - um reino de terror cotidiano.

Apocalypse Now é obsessivo desde o início. A sequência de abertura mostra o capitão Willard (Martin Sheen) isolado em um quarto de Saigon, relembrando sua tentativa de readaptação à vida civil, que resultou em dois divórcios: incompatibilização com a esposa e com o "paraíso" da sociedade civilizada. Entre pesadelos que o mostram como possuído pela violência das "missões especiais" ("...em casa eu sentia falta do Vietnam"), temos uma espécie de trailer do Apocalipse: a aceitação da brutalidade por Willard; sua entrega às drogas; e o Vietnam visto como uma viagem alucinógena. A agitação do personagem entre quatro paredes parece uma luta de vida ou morte com um adversário invisível.

Durante as filmagens, muitas vezes Coppola também parecia lutar contra inimigos invisíveis, à frente de um  "exército" de quase 500 artistas, técnicos, consultores e ordenanças de todo tipo. Nas Filipinas conseguiu alugar os aviões e o material bélico negado pelo governo norte-americano, mas foi surpreendido por um tufão que destruiu cenários e equipamentos. Martin Sheen precisou se recuperar de um enfarte em meio às filmagens. (O papel fora recusado por Steve McQueen, Al Pacino e outros). Marlon Brando atuou sempre como um "interventor" latente no roteiro. E os técnicos italianos da equipe exigiam culinária e vinhos importados do Mediterrâneo. Segundo Coppola o filme foi feito de forma  semelhante à adotada por Washington no Vietnam: "havia dinheiro demais, excesso de equipamento e, aos poucos, fomos endoidando".

Nenhum documentário poderia revelar, como Apocalypse Now, o misto de encenações "teatrais", viagens alucinógenas, insensibilidade e corrupção moral que estenderam a Guerra do Vietnam. O filme é a transfiguração - ora tragicamente realista, ora supra-real - do genocídio que exterminou inclusive quase 60 mil cidadãos dos Estados Unidos.

Apesar do enfoque trágico e da narrativa dissociada dos padrões comerciais, conseguiu interessar ao público como espetáculo, superando o desconforto provocado por um final insatisfatório. E conseguiu bilheterias que multiplicaram muitas vezes o investimento.

Além da impressionante direção, permanecem inesquecíveis a fotografia de Vittorio Storaro e o trabalho da equipe de som liderada pelo mestre Walter Murch.

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Sobre o Colunista:

Ely Azeredo

Ely Azeredo

Ely Azeredo é jornalista, crítico e professor de cinema. Escreve no caderno "RioShow" (O Globo) e no blog de cultura cinematográfica cujo acesso é: elyazeredo.com. Livros publicados: "Infinito Cinema", "Olhar Crítico: 50 Anos de Cinema Brasileiro" e "Jorge Ileli - O Suspense de Viver". Participou de edições sobre Hitchcock, Bergman e outros cineastas. Integrou o júri do Festival de Berlim. Criou o primeiro Cinema de Arte (RJ) e a revista "Filme Cultura".

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