O Conflito Moral e o Falatorio Sentimental
Em Pauline na Na Praia (1983), Eric Rohmer abre seu universo - tao denso, tao literario, tao rigoroso - para os mexericos sentimentais de algumas personagens
I — CARNE E ESPÍRITO
No último de seus “Seis contos morais”, O amor à tarde (L’amour l’après-midi; 1972), o francês Éric Rohmer refaz uma discussão cara a seu cinema e no entanto quase anacrônica (modelo século XIX) nos tempos erotizados já naquela década de 70 e mais ainda agora no novo milênio. A personagem central, Frédéric, é um homem de negócios que trabalha para um escritório de advocacia parisiense; ele é casado com Hélène, uma professora de inglês, eles têm um filho e ela está grávida; o casamento pequeno-burguês típico e feliz; com sua sutileza habitual e o engenho para sobrepor à objetividade das imagens diálogos elaborados desde um senso literário adaptado ao cinema, Rohmer põe em cena as inquietações de Frédéric, em sua interioridade, sua atração física por diversas mulheres com as quais topa (desde sua secretária, depois uma vendedora numa loja de roupas, outras avulsas das ruas em planos rápidos, até a relação nevrálgica com Chloé, uma amiga que dá em cima dele o tempo todo, tentando-o a um adultério que sua consciência não deseja). Em determinados momentos o suave erotismo de O amor à tarde remete a uma ode ao feminino segundo Rohmer, um observador de corpos que acaba enviando a questão ao espírito; há certas semelhanças deste filme de Rohmer com O homem que amava as mulheres (1976), de François Truffaut, mas o lirismo de Rohmer é de outro naipe, mais intelectualizado e menos sentimental. No fim, Frédéric parece ceder às investidas físicas de Chloé; mas, desesperado, pede folga no escritório e vai para casa, não sem antes ligar para a esposa e, ao chegar, Frédéric e Hélène têm o que se chama o “amor à tarde”, descrito com elipses físicas e mentais pela arte de Rohmer, um cronista do espírito no cinema.
A habilidade de Rohmer para conduzir a caracterização dos intérpretes é um dado. Além dos atores centrais (Bernard Verley como Frédéric, Françoise Verley como Hélène, Zouzou como a debochada Chloé), Rohmer puxa, em breves quadros de mulheres cortejadas nas ruas pela personagem, atrizes de outros filmes dos contos morais, como a madurona Aurora Cornu (a condutora de certa linha narrativa de O joelho de Claire, 1970) e a adolescente Béatrice Romand (a Laura travessa, também de O joelho de Claire, e que aqui em O amor à tarde, em sua cena, repreende o delírio onírico pan-sexual ou machista do homem moral que é Frédéric).
Ligando as pontas de suas meditações comuns no cinema de Rohmer, O amor à tarde traz sempre o fascínio e a originalidade do narrador cinematográfico simples e profundo que é o cineasta francês.
II – FUXICO NA PRAIA
No terceiro filme do ciclo de filmes das “Comédias provérbios”, Pauline na praia (Pauline à la plage; 1983), Éric Rohmer abre seu universo —tão denso, tão literário, tão rigoroso— para os mexericos sentimentais de algumas personagens. A ambientação é uma praia da Normandia. Na primeira imagem vemos um carro chegar diante do portão duma propriedade, uma das mulheres a bordo desce, abre o portão, o carro entra no espaço depois do portão. Saberemos logo: as primas Marion e Pauline, esta uma adolescente de quinze anos, vão passar uma parte das férias na casa de praia da primeira, a prima mais velha. Jogando com a trivialidade dos embates sentimentais entre homens e mulheres, Pauline na praia exige de Rohmer, mais que nunca, o rigor dos diálogos, esta sua capacidade quase única de construir uma narrativa cinematográfica em que a imagem (objetiva, clara, luminosa) se dissimula no texto previamente escrito como um objeto literário. Marion está num processo de separação conjugal e nestas férias se envolve com o tipo sedutor de Henri; Pauline se amiga (duplo sentido: amor e amizade) com um rapaz de sua idade, Sylvain; há Pierre, um antigo apaixonado de Marion antes de ela casar-se; e ainda, uma vendedora da praia, Louisette, que parece incialmente uma criatura sem função narrativa, mas assume seu peso dramático quando vai ao quarto de Henri para transar e, à chegada ali de Marion, é jogada num quarto com Sylvain, o que gera o equívoco que perturba o romance dos mais novos, Sylvain e Pauline; Pierre, que da rua viu a vendedora da praia nua no quarto de Henri, vai jogar a lenha no assado, para intrigar Marion, sua amada, com o galanteador Henri. Rohmer pinta em cores vivas esta meio delirante ciranda sentimental, um clima de fofoca dá a aparência de futilidade, que o cinema brilhante de Rohmer vai desfazendo.
O provérbio da vez em Pauline na praia foi extraído dum francês antigo, Chrétien de Troyes (1135-1191), “Qui trop parole, il se mesfait”, que está no romance de cavalaria Perceval ou le conte du Graal. Alguns traduziram isso por: “Quem fala o quer, ouve o que não quer”. Já li assim: “Nada se perde por ficar calado”. Eu, tentando vasculhar este antigo gaulês, sairia assim: “Quem fala demais, se atrapalha”. É o que acontece com as personagens de Pauline na praia: falam pelos cotovelos e, lá pelas tantas, se perdem, fazem a coisa errada, “mesfait”.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro Uma vida nos cinemas, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
relacionados
últimas matérias