O Quilmetro Zero do Brasil

Ir a Porto Seguro, no litoral sul da Bahia, reencontrar o imaginrio da descoberta do Brasil que nos acompanha desde os bancos da primeira escola

11/02/2017 22:17 Por Eron Duarte Fagundes
O Quilômetro Zero do Brasil

Na praia de Coroa Vermelha, no município de Santa Cruz Cabrália, vizinho de Porto Seguro

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Ir a Porto Seguro, no litoral sul da Bahia, é reencontrar o imaginário da descoberta do Brasil que nos acompanha desde os bancos da primeira escola. Redescobrimos o Brasil por um cenário: a terra que permanece, como exclama o Eclesiastes. Viajar é um pouco isto: o paradoxo de um retorno, o que é uma fantasia enviesada. Oficialmente, o Brasil foi descoberto pelos portugueses a partir de Porto Seguro, onde as caravelas de Pedro Álvares Cabral aportaram para abastecer: o posto de combustível era o oceano costeiro. Abastecidas as embarcações, os descobridores da nova terra seguiram para onde é hoje Santa Cruz Cabrália, na praia atual de Coroa Vermelha; ali a primeira e a segunda missas foram rezadas em terras brasileiras. É verdade que há a história dum tal de Duarte Pacheco que por 1498 se teria abeirado da costa do Maranhão; mas ainda e sempre Porto Seguro é nosso imaginário inicial, especialmente por se tratar dum porto seguro.

Quando o viajante desce pela BR-367 e, em lugar de seguir para o centro de Porto Seguro, envereda na direção das praias, logo no começo dá com o Memorial da Epopeia do Descobrimento, onde muito de nosso imaginário inicial é contado no meio duma pequena mata e minimuseus. Na BR-498, aquela que sai da BR-101 (direção sul, Vitória, no Espírito Santo) e vai ter ao Parque Nacional de Monte Pascoal, conservado atualmente pelos índios pataxós  e que fica ao pé do monte que Cabral e sua turma teriam avistado de alto-mar como primeira porção de terra do Brasil, vemos, quase na entrada do citado parque, o quilômetro zero da rodovia. Ao pé do monte, debruçado sobre a visão deste quilômetro inicial, o viajante faz sua contemplação: viemos daí, deste cruzamento zero. Tentamos penetrar na obscuridade desta visão (uma placa, um ponto de início) para buscar compreender os dilemas de nossa civilização atual. Divididos em índios e homens brancos, negros e brancos, pobres e ricos, homens e mulheres, explorados e exploradores, intelectuais e simplórios, estamos longe de topar, no imenso país, nossa unidade. Teria algo a dizer-nos esta placa, este início duma pequena estrada que, dos índios até o encontro com a gigantesca BR-101, cobre escassos quinze quilômetros? Ao sair de Porto Seguro, em busca do Monte Pascoal, se tinha a informação de cerca de 60 quilômetros de viagem; não era: eram 150 quilômetros, foram ida e volta 300 quilômetros rodando de carro pelos ermos do sul da Bahia em busca desta geografia inicial de nossa terra, nas proximidades do município de Itamaraju.

 Ao pé do Monte Pascoal, a primeira porção de terra
avistada pelos portugueses, o marco zero do Brasil.

O romancista gaúcho Erico Verissimo, que viajou muito, anotou no volume 2 de Solo de clarineta (1976), um livro de memórias (inconcluso em face de sua morte aos 70 anos): “Desde criança fui possuído pelo demônio das viagens. Essa encantada curiosidade de conhecer alheias terras e povos visitou-me repetidamente a mocidade e a idade madura. Mesmo agora, quando já diviso a brumosa porta da casa dos setenta, um convite à viagem tem ainda o poder de incendiar-me a fantasia.” Os viajantes contumazes são assim como Erico se autorretratou: demoníacos, incendiados, fantasiosos, infantis. Bem de acordo com esta Costa do Descobrimento brasileira. No Memorial, diante da figura dum antigo luso, o navegador Gil Eanes, uma menina local diz que vem dele e de seu espírito aventureiro a frase: “navegar é preciso; viver não é preciso.” Esta frase foi, séculos depois, resgatada pelo poeta português Fernando Pessoa; Pessoa, cioso da honestidade intelectual, não se esqueceu de indicar a fonte: “navegadores antigos”. A que a menina de Porto Seguro dá um nome: Gil Eanes. O viajante apaixonado de hoje é herdeiro dos navegadores de antanho. Como o escritor francês Jacques Lacarrière, que, cruzando a pé as estradas da Grécia, da França e da Itália, saiu-se com esta: “Le but du voyage? Aucun, si ce n’est de perdre son temps le plus féeriquement possible. Se vider, se dénuder et une fois vide et nu, s’emplir de saveurs et de de saviors nouveaux.” (“Le magazine littéraire”, número 561: “O objetivo da viagem? Nenhum, senão o de perder seu tempo o mais feericamente possível. Esvaziar-se, desnudar-se e uma vez vazio e nu, encher-se de sabores e saberes novos”.

As antigas caravelas de Cabral são agora substituídas por aviões. Mas a aventura, o inesperado, os atrasos ainda existem. Antes o homem dependia dos bons ventos da natureza, agora o homem depende dos bons ventos das companhias aéreas. Sai-se de Porto Alegre cedinho da manhã esperando chegar-se a Porto Seguro antes do meio-dia. Um almoço ainda, uma caminhada na praia. Nada disto. Desvio de rota inexplicável: em Brasília, capital federal e que não tem deixado de ser o centro poluidor moral do país, desviam-nos para São Paulo, onde chove muito; só lá pelo meio da tare embarcam-nos para o “porto seguro”. Chegamos quase à noitinha. Acertos na locadora de veículos onde alugamos um carro, só dá, neste dia, para jantar à beira-mar e uma breve caminhada à beira da rodovia. As viagens ainda têm seus contratempos. Mas sempre vale a pena arriscar para se descobrir o porto seguro (inseguro?) do passo inicial brasileiro.

Acréscimos: Além das curiosidades históricas, Porto Seguro se acerca de tudo o que o Nordeste brasileiro tem de mais espetacular. Seus mares. Os “verdes mares bravios” que tanto encantaram no século XIX o romancista cearense José de Alencar. Em Porto Seguro, tomando-se a balsa no cais, atravessa-se para Arraial d’ajuda, uma vila onde a noite ferve em boates. Enveredando pela rodovia, podemos atingir Trancoso, outro distrito de Porto Seguro; diz-se que nos anos 70 foram os hippies que descobriram este lugarejo perdido no litoral nordestino; observando a fauna humana que hoje habita o local, conclui-se que os frequentadores atuais não escondem esta descendência, por sua estranheza e comportamento anticonvencional. No município vizinho de Porto Seguro, Santa Cruz Cabrália, além da praia onde se rezaram as duas primeiras missas no Brasil, está também a vila-ilha de Santo André, onde a seleção alemã de futebol se escondeu antes dos jogos da Copa do Mundo de 2014; em face disto, a praia do local passou a ser chamada pelos aborígenes de “praia dos 7 a 1”.

Nota final: O que destoa da natureza transbordante em Porto Seguro, como em todo o Nordeste, é a precariedade das comunidades humanas, sua pobreza extrema, suas estruturas sociais problemáticas. Este contraste entre a natureza e as construções humanas em torno sempre inquietam que por lá anda.

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a dcada de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicaes de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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