A Dança das Armas

John Woo se diz um admirador da dança e que enxerga algumas cenas de Fervura Máxima como uma grande coreografia

18/03/2017 00:19 Por Bianca Zasso
A Dança das Armas

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O cineasta John Woo é um homem sensível. Quem já assistiu que seja um trecho de algum dos seus filmes deve estar pensando que esta colunista enlouqueceu, já que violência e personagens durões são uma constante na obra do chinês. Mas enquanto o leitor desconfia da sanidade mental desta que vos escreve, fica a pergunta: quem disse que não há poesia em filmes de ação? A resposta está presente em Fervura Máxima, que chega ao mercado brasileiro de DVD com qualidade de imagem e com extras interessantes.

Policial que sonha ser músico encara traficantes de armas em Hong Kong. Esta poderia ser uma sinopse medíocre para o filme de Woo. Medíocre porque a ideia não é nova e o próprio diretor afirmou ter como referência produções americanas como Bullit e Perseguidor Implacável. O que garante o destaque de Fervura Máxima é que John Woo é mais que diretor e roteirista. É um estilo que merece respeito e que pautou a maioria dos filmes, inclusive Hollywoodianos, que vieram depois de sua chegada aos Estados Unidos. Já na cena de abertura notamos que Fervura Máxima vai oferecer muito mais que tiro, porrada e bomba. Num clube de jazz, Yuen, interpretado pelo carismático Chow Yun-Fat, toca clarinete com a felicidade estampada no rosto. A elegância dos acordes é rompida para o início de uma das melhores sequências do longa, um tiroteio entre policiais infiltrados e mafiosos numa casa de chá onde os clientes levam pássaros em gaiolas para fazer companhia. A matança é mostrada de vários ângulos e culmina com Yuen atirando em fúria enquanto desce uma escadaria. Nasce um clássico.

Na parte técnica, Fervura Máxima tem uma paleta de cores incomum, que conversa com os tons dos letreiros de neon das fachadas dos bares e casas noturnas de Hong Kong, apesar desses cenários não serem o foco da trama. John Woo prefere filmar o clímax de sua produção em um hospital, transformando um lugar de recuperação em um verdadeiro inferno. Seus enquadramentos inusitados mostram a “batalha” sob diversos pontos de vista, numa confusão que coloca o espectador dentro da situação. Outro paradoxo é o antagonista, Alan, vivido por Tony Leung, policial infiltrado no submundo do crime que vive um jogo de disputa e solidariedade com Yuen. A dubiedade é uma constante nos personagens, inclusive nos vilões, cujo mais temido é Cachorro Louco, que honra o apelido, mas não aceita matar inocentes. Seu intérprete, Terence Chong, era dublê e ganhou o personagem de presente de Woo. Como esquecer a cena em que ele acende calmamente seu cigarro numa carcaça de carro em chamas enquanto a correria e as balas correm soltas ao seu redor?

Se os enquadramentos são a marca registrada e mais copiada de Fervura Máxima, também não se pode esquecer do slow-motion aplicado em muitos momentos decisivos do longa. Além de acrescentar carga dramática extra, a câmera lenta permite um flerte com um gênero revolucionário da violência no cinema: o western spaghetti. O ritmo dos atores segue o modelo dos pistoleiros comandados por nomes como Sergio Corbucci, Antonio Margueritti e Ferdinando Baldi. Por falar em ritmo, na entrevista presente nos extras do filme, John Woo se diz um admirador da dança e que enxerga algumas cenas de Fervura Máxima como uma grande coreografia, um bailado de sangue, suor e balas. Um homem sensível. Alguém duvida?

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Sobre o Colunista:

Bianca Zasso

Bianca Zasso

Bianca Zasso é jornalista e especialista em cinema formada pelo Centro Universitário Franciscano (UNIFRA). Durante cinco anos foi figura ativa do projeto Cineclube Unifra. Com diversas publicações, participou da obra Uma história a cada filme (UFSM, vol. 4). Ama cinema desde que se entende por gente, mas foi a partir do final de 2008 que transformou essa paixão em tema de suas pesquisas. Na academia, seu foco é o cinema oriental, com ênfase na obra do cineasta Akira Kurosawa, e o cinema independente americano, analisando as questões fílmicas e antropológicas que envolveram a parceria entre o diretor John Cassavetes e sua esposa, a atriz Gena Rowlands. Como crítica de cinema seu trabalho se expande sobre boa parte da Sétima Arte.

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