RESENHA CRÍTICA: Armas na Mesa (Miss Sloane)
Não é um filme fácil de compreender, endereçado particularmente aos poucos que trabalham com o governo americano e seu sistema de se criar e modificar a lei
Armas na Mesa (Miss Sloane)
EUA, 16. 252min. Direção de John Madden (Shakespeare Apaixonado, Hotel Marigold). Roteiro de Jonathan Perera (o escritor vivia na Ásia e este é seu primeiro script). Com Jessica Chastain, Mark Strong, Gugu Mbatha-Raw, John Lithgow, Mark Sthulbarg, Mark Strong, Alison Pil, Jake Lacy, Sam Waterston, Dylan Baker.
Um modesto orçamento de 13 milhões não foi suficiente para promover Jessica Chastain que os produtores achavam que com este filme teria alguma indicação ao Oscar e a devida repercussão (foi apenas indicada para Globo de Ouro). Mas a verdade é que ouvir falar e acompanhar o trabalho ingrato de uma lobista trabalhando em DC (ou seja, no coração do governo americano) não parece o sonho atual de nos que já temos que lidar com as loucuras do próprio presidente Trump. Não é um filme fácil de compreender, endereçado particularmente aos poucos que trabalham com o governo americano e seu sistema de se criar e modificar a lei. Francamente é um esforço de interpretação de Jessica, que só ao poucos vai crescendo de forma que até eu admiti que a moça merecia uma indicação (e que outras menos preparadas tiveram mais elogios e badalação. A moça tem alguns momentos memoráveis). Mas não sei se posso dizer o mesmo do personagem/ protagonista e de todo o complicado “game”. Já que no Brasil, o jogo (no fundo uma corrupção) é muito mais claro, aberto e descarado. Nada a ver com o jogo elaborado e intelectualizado mostrado no filme, aliás essa é justamente a razão mais importante para ver um filme como este, que no fundo é bem moralista e revelador. Tomara que haja alguém interessado no tema, já que o filme já fracassou e terá vida breve em qualquer outra mídia. Inclusive televisão.
Sem dúvida o personagem é muito interessante porque é uma solitária poderosa, brilhante, sem amigos, sem amores (ela mantém amantes, melhor dizendo transas com rapazes fortes e bem pagos). Não aparece alguém da família, porque já se sabe que para chegar tão longe, subir tanto não da para ter famílias. Jogar é o game da vida dela. E é ao mesmo tempo fascinante e assustador. Estava esquecendo dizer que a maior parte do filme é sobre o “gun control”, a venda, comércio e liberdade de uso de armas nos Estados Unidos, que é um problema que aparenta ser insolúvel (e novamente não dá para fazer paralelo com nossa situação). O filme joga com todos esses elementos e ainda se da ao luxo de ter um final inesperado e eficiente (ainda que diluído por outro final mais modesto).
Sem querer estender mais, este nada comercial filme interessa advogados e políticos, aqueles que não querem uma diversão ligeira e passageira.
Sobre o Colunista:
Rubens Ewald Filho
Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Seus guias impressos anuais são tidos como a melhor referência em língua portuguesa sobre a sétima arte. Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de Éramos Seis de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o Dicionário de Cineastas, editado pela primeira vez em 1977 e agora revisado e atualizado, continuando a ser o único de seu gênero no Brasil.
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