Vocês Ainda Não Viram Nada

Alice Guy-Blaché foi a primeira pessoa a dirigir filmes. Antes de toda aquela turma barbada que muitos lembram sem fazer grande esforço

26/04/2017 22:55 Por Bianca Zasso
Vocês Ainda Não Viram Nada

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Caro leitor, cite um pioneiro do cinema. Irmãos Lumiére, Meliès e até Thomas Edison são nomes que devem ter sido lembrados. Mas e Alice Guy-Blaché vocês sabem quem é? Pois deveria, já que ela chegou primeiro mas, como muitas outras mulheres, teve sua história esquecida. Mas duas francesas, Clara e Julia Kuperberg, tiraram o véu de Alice e de outras tantas moças que trabalharam com talento e dedicação na indústria do cinema quando ela passava longe de ser uma...indústria. Aliás, Alice Guy-Blaché foi a primeira pessoa a dirigir filmes. Antes de toda aquela turma barbada que muitos lembram sem fazer grande esforço.

E a mulher criou Hollywood tem pouco mais de 50 minutos de duração, foi exibido no Festival de Cinema do Rio e teve seus direitos vendidos para ser exibido na TV Americana. Ele não é curto, é direto. Já começa deixando claro que os primeiros anos do cinema não conheciam nem glamour, sequer valorização. Fazer filmes não era algo cobiçado e, justamente por isso, era onde as mulheres mais conseguiam vagas. Qual o charme de recortar e colar negativos ou escrever roteiros? Para algumas, era uma paixão que não precisava nem ser remunerada. Foi nesse período que nomes como Mary Pickford e Frances Marion dominavam a produção cinematográfica. E para quem pensa que elas só criavam histórias de amor com mocinhas indefesas, fica o recado: os faroestes que fizeram nossos avós pularem da cadeira com tiroteios e perseguições saíram da mente de garotas.

Depoimentos como o da roteirista Robin Swicord e da produtora Lynda Obst deixam claro que, no início, o cinema era das mulheres e ninguém reclamava. Apenas após a revolução industrial que as coisas mudaram de rumo e passamos a ter o panorama que, infelizmente, se apresenta até os nossos dias. Homens comandam a maioria dos estúdios, dirigem a maioria dos filmes. Mulheres fazem figurinos, atuam e, caso a história necessite de um olhar mais “feminino”, comandam um set.

O documentário da dupla Kuperberg não é inovador em sua forma. Segue a linha entrevistas intercaladas por arquivos de época e algumas imagens de Hollywood e seus estúdios gigantes. Não é preguiça criativa, apenas uma opção pela simplicidade, já que o importante é o conteúdo, cheio de dados que fazem cair o queixo até dos mais esperançosos cinéfilos. Mulheres já foram as donas dos estúdios todos, comandando elencos com centenas de figurantes. Ida Lupino, aliás, era garantia de personagens durões bem construídos. Você leu bem, durões. Os machos destemidos que habitaram o cinema noir foram criados por uma mulher. Machistas, enrustidos ou não, durmam com esta informação. Kathryn Bigelow faz ótimos filmes de ação, não é? Então por que ela está sempre no fim ou nem habita a lista de melhores diretores do gênero? Porque mocinhas não brincam com armas nem explodem carros, pensam muitos.

Lutar por igualdade para homens e mulheres no mercado de trabalho parece uma ofensa para muitas pessoas. Inclusive mulheres. Por mais feministas que sejam nossas mães, a sociedade quer nos ver quietinhas e impecáveis, quase um bibelô sobre o aparador, que embeleza o ambiente mas não tem utilidade nenhuma. No mundo do cinema isto fica mais claro ainda, já que a palavra mulher, em especial no cinema Hollywoodiano, vem sempre acompanhada de adjetivos como bela, musa e diva. Não é a negação do elogio a nossa reivindicação, mas a possibilidade de ser vista como algo além de um simples rosto ou corpo de proporções ditas perfeitas. Como diz a produtora Sherry Lansing, que assumiu o cargo de chefe dos estúdios Fox e foi parar nas manchetes, os homens acham que ser durona não faz parte do comportamento feminino. Vocês ainda não viram nada, homens. Lutar como uma garota não é para qualquer um.

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Sobre o Colunista:

Bianca Zasso

Bianca Zasso

Bianca Zasso é jornalista e especialista em cinema formada pelo Centro Universitário Franciscano (UNIFRA). Durante cinco anos foi figura ativa do projeto Cineclube Unifra. Com diversas publicações, participou da obra Uma história a cada filme (UFSM, vol. 4). Ama cinema desde que se entende por gente, mas foi a partir do final de 2008 que transformou essa paixão em tema de suas pesquisas. Na academia, seu foco é o cinema oriental, com ênfase na obra do cineasta Akira Kurosawa, e o cinema independente americano, analisando as questões fílmicas e antropológicas que envolveram a parceria entre o diretor John Cassavetes e sua esposa, a atriz Gena Rowlands. Como crítica de cinema seu trabalho se expande sobre boa parte da Sétima Arte.

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