Animais Noturnos

Filme importante, imperdível e que requer uma revisão para melhor entendimento

13/05/2017 15:13 Por Felipe Brida
Animais Noturnos

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Animais Noturnos (Nocturnal Animals). EUA, 2016, 116 min. Suspense/Drama. Dirigido por Tom Ford. Distribuição: Universal Pictures

Susan (Amy Adams) é uma artista contemporânea insatisfeita com o trabalho e com seu casamento. Um dia recebe em casa o manuscrito do novo romance do ex-marido que há tempos não vê, Edward (Jake Gyllenhaal), dedicado a ela. De conteúdo violento, o livro causa angústia imediata em Susan – a cada página, relembra, com peso na consciência, as poucas alegrias e muitas tragédias vividas ao lado do ex. Até o término da obra, Susan será envolvida num turbilhão de sentimentos devastadores, fazendo-a encarar fantasmas do passado.

Exibido em sessão especial lotada de gente na 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro passado, onde assisti pela primeira vez e gostei, o novo filme do diretor e roteirista Tom Ford é um exímio exercício de roteiro, que constrói um complexo quebra-cabeça em três frentes: o suspense psicológico (tenso, perturbador e angustiante), o drama (austero e bem triste) e o policial investigativo (violento sem ser gratuito). Esses gêneros coexistem dentro de um filme metalinguístico e soberbamente simbólico, feito para um público adulto exigente, que curte cinema inteligente.

A história é contada pelo ponto de vista da mulher, no caso a personagem principal, uma elegante artista infeliz no trabalho e no casamento. Depois de receber o manuscrito do ex, ao ler o material, projeta para nós as cenas imaginadas naquelas páginas, que compõem um romance brutal sobre uma família (marido, esposa e filha adolescente) que se envolve num acidente de carro no meio do deserto. As duas mulheres da ficção tornam-se vítimas de sequestro por um trio de bandidos – como líder, o jovem Aaron Taylor-Johnson, indicado ao Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante, enquanto o marido e pai de família é abandonado na beira da estrada. Em meio a um calor infernal, ele procura ajuda, auxiliado por um policial, Andes, no estilo de xerife texano, ótimo trabalho de Michael Shannon, indicado ao Oscar de coadjuvante esse ano. No desenrolar da história, os dois saem numa jornada cruel em busca de respostas para o caso. Isto tudo ocorre no livro, lido por Susan, com cenas jogadas para o telespectador a partir do que ela cria em mente. Em paralelo, no tempo presente, fora da ficção literária, Susan perde o sono, sacrificada com o conteúdo que tem em mãos, aquela obra domina seu íntimo, fica atônita com as semelhanças do manuscrito com coisas da vida real e questiona o motivo de ser mencionada pelo ex na dedicatória – para causar essa aproximação de ficção e realidade, Jake Gyllenhaal interpreta dois papéis: Tony, no livro, e Edward, o ex-marido, num formato original de metalinguagem cênica. Bom trabalho de um mestre chamado Tom Ford.

Além da literatura, o filme dialoga com o atual panorama da arte e da moda norte-americana, realçado no estonteante figurino minimalista de Arianne Phillips (duas vezes indicadas ao Oscar) e na fotografia explosiva do premiado Seamus McGarvey, com altos contrastes de cores frias e quentes. Impressiona desde a bizarra abertura, a dança das senhoras obesas seminuas, vestidas apenas com quepe e acessórios em formato de bandeira dos Estados Unidos, numa clara alegoria à decadência e ao feísmo na cultura contemporânea. Há outros elementos de impacto em “Animais noturnos”, como a simetria fotográfica em frames, sobreposições de imagens fortes, que lembram pinturas estilosas, a edição de flashbacks e de interrupções brutas quando a personagem abre e fecha o livro.

O filme ainda trata, por ora, de relacionamentos em fase terminal e da crise econômica mundial, ou seja, caminha muito além do complexo suspense/drama/policial.

Recebeu indicação ao Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2016 (ganhou o Leão de Prata), oito indicações ao Bafta, três ao Globo de Ouro (melhor diretor, ator coadjuvante e roteiro) e uma ao Oscar (Shannon), além de outros 12 prêmios internacionais.

Também vemos no elenco de apoio Michael Sheen, Laura Linney e Jena Malone, os três com papéis excêntricos, saídos de um filme de Wes Anderson! Mas aqui quem dá as cartas é Tom Ford, em seu segundo trabalho como diretor, sete anos depois do belíssimo drama “Direito de amar” – ele escreveu o roteiro baseado no romance “Tony & Susan”, de 1993, do falecido autor e crítico literário norte-americano Austin Wright.

Filme importante, imperdível e que requer uma revisão para melhor entendimento. Em DVD pela Universal – no disco há um único extra, um making of de 11 minutos, com boas explicações acerca da produção.

 

 

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Sobre o Colunista:

Felipe Brida

Felipe Brida

Jornalista e especialista em Artes Visuais e Intermeios pela Unicamp. Pesquisador na área de cinema desde 1997. Ministra palestras e minicursos de cinema em faculdades e universidades. Professor de Semiótica e História da Arte no Imes Catanduva (Instituto Municipal de Ensino Superior de Catanduva) e coordenador do curso técnico de Arte Dramática no Senac Catanduva. Redator especial dos sites de cinema E-pipoca e Cineminha (UOL). Apresenta o programa semanal Mais Cinema, na Nova TV Catanduva, e mantém as colunas Filme & Arte, na rede "Diário da Região", e Middia Cinema, na Middia Magazine. Escreve para o site Observatório da Imprensa e para o informativo eletrônico Colunas & Notas. Consultor do Brafft - Brazilian Film Festival of Toronto 2009 e do Expressions of Brazil (Canadá). Criador e mantenedor do blog Setor Cinema desde 2003. Como jornalista atuou na rádio Jovem Pan FM Catanduva e no jornal Notícia da Manhã. Ex-comentarista de cinema nas rádios Bandeirantes e Globo AM, foi um dos criadores dos sites Go!Cinema (1998-2000), CINEinCAT (2001-2002) e Webcena (2001-2003), e participa como júri em festivais de cinema de todo o país. Contato: felipebb85@hotmail.com

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