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A Matriz Zumbi

Em seu primeiro filme, A Noite dos Mortos-vivos, George A. Romero já estabeleceu a lógica estético-narrativo dos filmes-zumbi

27/07/2017 10:27 Por Eron Duarte Fagundes
A Matriz Zumbi

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O cineasta americano George A. Romero faleceu, aos 77 anos, no dia de 16 de julho de 2017. Fez filmes de horror, algo que o poderia aprisionar num gueto de espectadores. Mas sua grandeza como diretor de cinema o fez ultrapassar estes limites. Talvez somente o italiano Mario Bava seja tão notável no gênero horror no cinema. O texto abaixo, escrito numa das vezes em que vi seu principal filme, A noite dos mortos-vivos, numa sessão na Sala P.F. Gastal, no Gasômetro, em Porto Alegre, à beira das águas do Guaíba, é minha homenagem a este mestre de filmar.

A Matriz Zumbi 

 Em seu primeiro filme, A noite dos mortos-vivos (Night of the living dead; 1968), o realizador norte-americano George A. Romero já estabeleceu a lógica estético-narrativo dos filmes-zumbi, que ele retomaria em Zombie, o despertar dos mortos (1978) e em tempos recentes recuperaria em Terra dos mortos (2005). Vai uma distância muito grande entre os habituais diretores que cultuam o horror cinematográfico e um cineasta como Romero; antes de mais nada, o horror para Romero parece fruto de certas coisas naturalmente nascidas da conduta humana, ainda quando ele trate de encenações tão aparentemente fantasiosas quanto os corpos mortos que ressuscitam como zumbis; depois se evidencia numa obra-prima como A noite dos mortos-vivos que Romero é um cérebro de filmar: esta sua realização se situa dentro do rigor intelectual do melhor cinema dos anos 60 e tudo em cena parece medido por uma régua estética, gestos, angulações, a agudez da montagem, a precisão dos diálogos dentro do todo fílmico. O barroco de Romero, que explodiria mais em Zombie, o despertar dos mortos (1978), é absolutamente controlado;  o ato de devorar a carne humana perpetrada selvagemente pelos zumbis é tomado por uma câmara de Romero em êxtase mas sem os delírios absurdos, é um absurdo (certo) que se encaixa dentro de um raciocínio cinematográfico extremamente lógico.

No começo do filme um casal de irmãos passeia por um cemitério. Com notável senso de cinema, Romero compõe seus despojados e quase matemáticos planos que vão antecipando a atmosfera claustrofóbica que logo vem à imagem. Até que um morto-vivo que surge inicialmente a medo na imagem ataca o rapaz. Ela vai refugiar-se numa casa perdida no campo. Aonde vão ter outros refugiados que igualmente fogem de um bando de zumbis, seres que se vão reproduzindo ao longo do filme à medida que os vivos morrem. Um noticiário de televisão vai informando que os estranhos mortos-vivos são produtos de locais dominados por uma certa radiação; nestes locais os mortos, se não forem cremados, ressuscitam e atacam furiosamente os vivos. Jogando com a precariedade da situação dos vivos dentro da casa, o ameaçador avanço dos zumbis do lado de fora e os cruzamentos elípticos do noticiário televisivo, Romero arma uma antológica reflexão, digna da década de 60, sobre o horror e a ameaça das mutações humanas. Uma reflexão disfarçada de filme de horror?

Ambientado em Pittsburgh, deixando entrever sua notável economia de meios já a partir dos poucos dólares investidos em sua produção, A noite dos mortos-vivos, apesar de algum jeito para o barroco e o estilizado, é tão desglamurizado, sem ênfases e com seu modelo rígido de filmar, que poderíamos pensar que se o francês Robert Bresson se interessasse por filmar narrativas de horror, A noite dos mortos-vivos seria o mais bressoniano dos filmes de horror jamais feitos. Romero, mestre do cinema tantas vezes imitado pela picaretagem cinematográfica, descobriu a alma no horror cinematográfico.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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