O Cinema da Memória para o Século XXI

Em As Praias de Agnès, a cineasta Agnès Varda expõe-se diante de sua própria câmara, abrindo sua vida, a paixão do cinema dentro dela

01/02/2018 07:45 Por Eron Duarte Fagundes
O Cinema da Memória para o Século XXI

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“A radiante simplicidade do movimento feminista aqui homenageado é tão risível que não se consegue detestar o filme. Sente-se apenas que algumas de suas células cerebrais foram eliminadas.” (Pauline Kael, ensaísta norte-americana sobre Duas mulheres, dois destinos, filme de Agnès Varda de 1977).

 

No começo de As praias de Agnès (Les plages d’Agnès; 2008) a câmara mostra as ondas de uma praia rebentando, e a câmara filma ao mesmo tempo a onda e a imagem desta onda dentro do espelho, surgindo aí uma duplicação experimental-documental da imagem. Pensando sobre o processo de construção de As praias de Agnès, que funde documentário, ensaio e pontas de ficção de maneira bastante original e altamente reflexiva, chega-se ao âmago da simbologia utilizada pela realizadora belga (formada no cinema francês da “nouvelle vague”) Agnès Varda nesta cena do espelho que reflete a imagem filmada e é filmado no instante deste reflexo: em As praias de Agnès Varda expõe-se diante de sua própria câmara, abrindo sua vida, a paixão do cinema dentro dela, mas aí entra seu marido, o não menos famoso diretor francês Jacques Demy, os filhos, os netos, as viagens, os amigos, os rostos variados (recapturados ou inventados); assim, o que está no filme é muito mais um espelho que uma filmagem direta, embora esta filmagem aparentemente também exista.

O que poderia ser a narrativa de uma velhinha defasada e anacrônica acaba transformando-se numa demonstração de exuberância estilística poucas vezes vista no cinema deste incipiente século XXI. E abarca uma vivacidade humana e artística que surpreende venha das mãos cinematográficas duma senhora de oitenta anos, cujo aniversário é comemorado e filmado como parte desta comemoração na sequência final de As praias de Agnès.

Os grandes filmes de Varda (Cleo das 5 às 7, 1962; As duas faces da facilidade, 1965; Sem teto nem lei, 1985) são personagens de As praias de Agnès. E também o furacão Jean-Luc Godard. E o amor de Demy. E o humor do amigo Chris Marker. E as intensidades interpretativas de Sandrine Bonnaire e Gérard Depardieu. São personagens e não ideias de Varda, pois As praias de Agnès é um pouco um filme-pensamento: talvez não tanto quanto aqueles do francês Alain Resnais ou do alemão Alexander Kluge, mas certamente um elemento ácido que contracena com o humanismo sentimental francês e conduz a narrativa por alguns caminhos que podem dificultar a apreensão do público e espanta um pouco tenha lançamento comercial no país.

De qualquer maneira, ainda bem que isto ocorra, pois assim o espectador mais exigente pode tomar contato com uma narrativa que tem algo de testamentário no âmago da obra de uma cineasta que perturbou e inovou a sétima arte e que, mesmo no cinema do século XXI, com suas múltiplas tecnologias, não topa rival para sepultar suas intenções e facetas revolucionárias. Uma das declarações curiosas e sintomáticas de Varda em cena é aquela sobre o que a levou ao cinema; não era uma cinéfila, até os 25 anos tinha visto uns oito filmes, mas começou apaixonada pela fotografia, sentindo nestas imagens fixas a necessidade da palavra e aí desembarcou no cinema, justamente num meio, a “nouvelle vague” francesa, em que a palavra e a imagem, ou a literatura no cinema, turbilhonavam em conjunto. Varda deu, e ainda dá em As praias de Agnès, uma contribuição essencial a estas relações verbais-visuais.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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