O Que Acontece se Conta na Forquilha da Frase

O Caderno de Sábado do Correio do Povo é uma das coisas que me importam

03/11/2017 07:48 Por Eron Duarte Fagundes
O Que Acontece se Conta na Forquilha da Frase

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Eu sou um comentarista a esmo. Apanho tudo o que me importa e vou construindo minhas ideias em frases; cuido que o conjunto de tudo o que me importa construído em frases produz uma reunião de ensaios que me representa: sou eu reunido; como um sub-Montaigne do pampa. Não significa que só exista tudo o que me importa; eu (o eu) não poderia ser um resumo do mundo.

O Caderno de Sábado do Correio do Povo é uma das coisas que me importam. Basicamente feito de ensaios, estudos sérios, que percorrem a literatura, a filosofia, a política, o cinema, a música. Mas há desvios que também excitam. O lugar do conto. Ressuscitando um polo da tradição do Caderno de Sábado de antanho: a ficção em conto; o exercício estilístico na pequena história.

Pode-se começar citando a poesia, que é ainda mais menosprezada pelo pragmatismo. Uma poesia publicada no Caderno. Chama-se “80 anos de Guernica”. Traz a assinatura de um dos principais poetas gaúchos: Luiz de Miranda.

“Louvo sete vezes sete mil vezes
a Guernica do magistral Picasso,
que dos horrores da guerra
ilumina toda a humanidade.”
Horrores da guerra. Horrores do cotidiano.

O primeiro conto que me importa traz o título de Acontece. É assinado por Lélia Almeida. Penso um pouco na ficcionista Lygia Fagundes Telles quando começo a ler o texto: “A consulente que marcou hora para hoje às 9h foi minha colega de infância, da época do colégio,  crescemos juntas brincando, estudando, namorando os meninos da nossa idade, indo a bailes e aniversários e todas estas coisas que compõem a vida simples das moças do interior.” Toda a cena do conto se dá no consultório duma cartomante: ela atende uma amiga de infância. “Temos a mesma idade, 55 anos, estamos bem de saúde e com uma alegria sincera de quem aceita e aprecia a vida.” O ritmo inicial é dum andante machadiano: par e compasso, sem pressa, sem alteração de voz, música de câmara. Depois, a voz sobe um pouco; mas o ritmo ainda vai a passo. A consulente revela que foi estuprada por um primo de 18 anos quando ela tinha 14 anos. Ela rememora uma conversa com a empregada logo depois do estupro. “Contei para a Eva, a empregada, que me disse que era assim mesmo, que acontece, e que eu rezasse para não estar grávida.” Toda a sessão de cartas é um flaschback de violência contra ela, por ser mulher; o conto de Lélia é este extenso e intenso flashback. “E dessas coisas que acontece ela foi desfiando as lembranças, como a do médico endocrinologista que frequentava uma vez por mês para emagrecer e que tocava e beijava seus seios e dizia que eram belos como os de Maria Schneider, que ela não sabia quem era. E saía da consulta com a receita de Hipofagin, excitada e assustada. E ele dizia, não se assuste, estas coisas acontecem. Um  dia ele disse que onde se ganha o pão não se come a carne e que ia encaminhá-la para outro médico.”

O que acontece deve ser narrado. Mesmo que se trate dum horror reiterativo do cotidiano. Lélia o faz com uma delicadeza perversa e enviesada. “E que essas coisas acontecem com todas as mulheres.” A cartomante depôs as cartas para sua consulente. E a consulente lhe devolveu mostrando-lhe duas fotos antigas, aparentemente singelas e tranquilas, porém com uma força de evocação de aspectos doloridos do passado, como se veria logo. “As fotos me enfeitiçaram em meio a fumaça da água quente e cheirosa.” A frase final do conto é uma reiteração rítmica. “E estas coisas acontecem.” Como os fatos que se repetem por submissão dos homens, a frase torna sempre ao texto para martelar a linguagem, ironizar seu lugar-comum.

Mais que ironizar, o que temos em A morte na manchete do jornal, de Juremir Machado da Silva, é a subversão dos clichês da linguagem pela utilização exacerbada da polissemia dos termos e das expressões. Agudo manipulador da palavra como fonte de dizer várias coisas valendo-se dos torneios de expressão sintáticos e semânticos, Juremir, desde o início de seu conto, diverte-se com o múltiplo universo da palavra “contar” e derivados. “Conta-se por ouvir dizer, sem que isso esteja escrito em letra de forma, que o novo jornal não contava tudo porque estava com os dias contados e só esperava o dia em que a sua própria morte seria noticiada nas manchetes dos concorrentes, aceitando-se que algum deles sobreviveria para contar a história que se fazia à margem das opiniões publicadas.” Os períodos de A morte na manchete do jornal são longíssimos e promovem um entrelaçamento de orações onde o uso de conjunções determina o ritmo e a tensão linguísticos; está mais para o modelo do colombiano Gabriel García Márquez que para aquele do francês Marcel Proust, sem embargo de Juremir aprofundar seu próprio caminho, uma personalidade própria, um uso pessoal das formas de dizer. “Conta-se muito, embora se deva dar desconto a todos esses contos e contados à luz de fogueiras e à sombra de noites de muita espera nesse ano da glória, por assim dizer, pois de glória pouco havia, nesse ano de 1913, salvo se o calendário com uma imagem pia na parede da casa velha fosse mais velho do que a casa e não identificasse de fato o ano em que tudo aconteceu, sim, tudo aconteceu, visto que os acontecimentos não esperavam as manchetes e se precipitavam como tempestades coalhando os baixios e a várzea grande com um lençol luminoso e frisado pelo vento fresco que atravessava a região depois dos aguaceiros e antes da escuridão.”

A morte na manchete do jornal é o conto em que um jornalista põe no jornal sua própria morte, ele faz a matéria no momento mesmo de seu assassinato e a manda para a redação: ao sair, ele já estará morto; como toda narrativa, a notícia se refere ao já acontecido. É a transposição para a literatura daquilo que habitualmente se faz no cinema documental: filma o ato ao vivo e depois exibe-o como já passado. “Aquilo que não se conta, embora esteja na conta, essa fatura que só chegou quando todos se sentiam além da conta ou vivendo por conta do destino, é que tudo estava escrito, só dependia do ponto final, de uma exclamação, de uma voz ativa —a voz que punha em movimento uma tropa sangrenta de gente passiva— de um tempo verbal ou da pena de quem não sentia pena”. E também: “Sim, é preciso reconhecer que muito se conta sobre aquele tempo, fundamentalmente em contos e outras contagens de ficção, que é onde se contam as verdades incômodas”. Sim, contar é preciso: necessário, com precisão. Juremir tem estas necessidades: preenchidas amplamente numa aventura de palavras densa como esta de A morte na manchete do jornal. Um ancião tem 118 ou 119 anos. “Diante do ancião, tirou o chapéu, abaixou-se e perguntou-lhe ao ouvido:

—Desde quando pensa na morte?”

O que é noticiado é real. O que está no conto... Eis então. O real é uma construção da escrita. “Conta-se que o chefe dos assassinos, muitos anos depois, diante de um pelotão de jornalistas, teria confessado com uma mão no coração e outra no cabo do velho revólver:

—Tanto é verdade que saiu no jornal.”

A linguagem em Juremir é uma forquilha. Bifurca-se. Transforma-se numa funda para acertar o olho. A funda faz-se da forquilha encontrada na árvore, que é o idioma.

Alcy Cheuiche vai pelo outro lado com seu conto A forquilha do Mata-olho. Diálogos na língua falada mesmo, com suas inconstâncias de concordância e sintaxe. Trechos narrativos sem as sequências longas interligadas por conjunções: frases quase à Hemmingway. Mas o mesmo cheiro de interior gaúcho, uma certa violência à porta do texto. Assassinato e ameaça de degola podem unir os universos de A morte na manchete do jornal e A forquilha de Mata-olho. Diferentes aproximados. Escritores próximos e longínquos. Para deleite de quem se debruçar sobre as formas de linguagem destas paragens. “—Foi assim, Perico, sem mentira nenhuma, como eu tô te contando.” Entre uma revelação e outra do espantoso caso da forquilha do Mata-olho que salvou o avô de Perico, o narrador opõe a perplexidade silenciosa do neto, representada por reticências como uma caixa do diálogo: “—...”.

Podemos voltar então ao poeta Luiz de Miranda e dizer que os narrados por Lélia Almeida, Juremir Machado da Silva e Alcy Cheuiche, compondo os horrores do mundo, iluminam toda a humanidade. É uma das funções da arte (há tantas). O Caderno de Sábado tem uma função dentro deste leitor que aqui escreve: um apêndice dos livros que se leem cotidianamente.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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