O Nascimento do Urbano e a Montagem Descontínua

São Paulo S/A não deixa de ser um estudo sociológico dum tempo do país, feito com personagens que se estruturam em torno de algumas ideias deste estudo

08/12/2017 12:24 Por Eron Duarte Fagundes
O Nascimento do Urbano e a Montagem Descontínua

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Se os flashbacks se desestruturam morro abaixo em São Paulo S/A (1964), o primeiro filme dirigido pelo paulista Luís Sérgio Person e que se tornou o emblema duma época social e cinematográfica no Brasil, permitindo um frescor temporal na narrativa que os anos não conseguiram derrubar, é na descontinuidade espacial que Person avança para um ponto em que espaço e tempo se permutam criando uma composição fílmica autenticamente revolucionária, provocativa, intensamente jovem em suas formas. A câmara se agita muito em São Paulo S/A; e esta agitação perturbadora se alia com a montagem.

A sequência que abre o filme é exemplar deste processo criativo de Person. A câmara está do lado de fora duma grande vidraça duma janela dum apartamento de classe média. O espectador vê um casal jovem brigando. Não ouve os diálogos da briga. Pode observar os gestos ásperos. E nos ruídos da faixa sonora somente uma palavra, mais gritada, dita duas vezes, aparece como um sussurro: é Luciana chamando Carlos de covarde, covarde. No fim da cena, Carlos empurra Luciana, que cai no chão e parece rastejar para Carlos, que todavia se manda. A câmara sai desta tomada inicial fixa, deslocando-se para enquadrar a outra personagem central do filme, a cidade de São Paulo e a asfixia urbana, enquanto começam os créditos iniciais. Após os créditos, a sequência permuta os espaços e os diálogos. Carlos está na rua caminhando, Luciana está no apartamento abandonada; mas os diálogos agem como se Carlos e Luciana estivessem no mesmo espaço, no mesmo tempo, terçando as armas conjugais. “Por que embora Carlos, por quê?” “É inútil. É como se fosse um câncer. Nada adiantaria.”

Person não age com o radicalismo do francês Alain Resnais em O ano passado em Marienbad (1961), embora não se possa negar que qualquer filme que tenha proposto uma descontinuidade espacial-temporal dos anos 60 para cá possa ter por mote a obra-prima de Resnais; mas Person adota um outro tipo de fluência, namora um pouco o intelectualismo europeu, mas tem uma descontração brasileira com seus movimentos (de câmara ou de montagem).

Sabe-se que a base do roteiro de Person foi sua visão como indivíduo brasileiro do entusiasmo desenvolvimentista do país entre o fim da década de 50 e o começo da de 60; no início do filme, logo depois dos créditos, é escrito: “os episódios deste filme são fictícios e ocorrem entre os anos de 1957 a 1961.” A visão de Person sobre o desenvolvimentismo é crítica: ele acusa o lado estreito, falso, imediatista desta fase da sociedade brasileira e mostra os vácuos da classe média que financiou esta ilusão. São Paulo S/A não deixa de ser um estudo sociológico dum tempo do país, feito com personagens que se estruturam em torno de algumas ideias deste estudo. No entanto, Person tem a profundidade e a habilidade do cinema para não deixar que este estudo se esterilize como as criaturas que aborda.

Carlos é o jovem de classe média arrivista típico dos anos 60. Mas não é um simples tipo. Com o concurso da interpretação “esvaziadamente” sombria de Walmor Chagas, então estreando num papel cinematográfico, Person vai pouco a pouco tornando complexas as relações da personagem com o meio geográfico (a asfixiante metrópole paulistana) e o meio social (a classe média que emerge no centro industrial) em que vive. Carlos tem um casamento burguês com Luciana, interpretação também antológica de Eva Wilma. O filme ainda mostra excertos de relacionamentos de Carlos com outras duas mulheres: Hilda (interpretada com ecos de lata existencialista à Antonioni por Ana Esmeralda), que aparece quando ela se suicida, e o relacionamento dela com Carlos é revelado em fluidos flashbacks que se interrompem no espaço, os livros de Rilke e Rimbaud que vemos no cenário do suicídio se confundem com os passeios de Hilda e Carlos por uma galeria de arte onde vemos uma exposição de pinturas de Lasar Segall; e a outra mulher é Ana, uma composição doce e ingênua e malandra de Darlene Glória, mostrando as possibilidades duma mulher mais fácil e superficial nas mãos de Carlos. Entre a esposa que acaba por aborrecê-lo, a amante intelectual que nada entende da vida e é por esta derrotada e a garota faceira que vai trocá-lo por seu patrão, Carlos se exaspera com o vazio e no final rouba um carro e foge tanto de suas mulheres quanto da grande cidade que o despersonaliza esmagando. Há uma cena em que a câmara vê deliciada Darlene/Ana tomando uma ducha ao ar livre em primeiro plano. Numa outra cena Hilda/Ana Esmeralda é filmada contra uma parede branca e desanda no verbo: diz, entre outras estranhezas: “É uma coisa que se pode ler em determinados papéis, em certos documentos importantes: pessoal e intransferível...” No fim da cena, enquanto Carlos se afasta, Hilda repete diversas vezes, até tornar sua voz pouco audível: “Pessoal e intransferível...” São destes excertos que caracterizam situações e seres, engendrados numa montagem de rara felicidade, que Person extrai a melhor contribuição de São Paulo S/A para o cinema brasileiro.

As palavras finais de Carlos (“Recomeçar... mil vezes recomeçar... recomeçar de novo... recomeçar sempre... recomeçar... recomeçar...”) têm alguma coisa de um gesto desesperado e talvez fútil; estas exclamações reticentes de Carlos aparecem sobre as imagens difusas de transeuntes paulistanos; no plano anterior a imagem de Carlos começa a desaparecer pois sobre ela se imprime a imagem da cidade de São Paulo. O nascimento do urbanismo moderno brasileiro teve no tipo de montagem de São Paulo S/A um adequado correspondente estético; e teria a imagem de Carlos sumindo-se na cidade o valor simbólico da fuga/evasão do indivíduo na sociedade que o massifica cada vez mais?

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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