Um Relato Urbano Tenso e Desajustado

Numa e a ninfa (1915), que é uma semi-aliteração em seu título, é um romance político no sentido em que a ambientação e as motivações das personagens se circunscrevem ao político

08/12/2017 13:08 Por Eron Duarte Fagundes
Um Relato Urbano Tenso e Desajustado

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Lima Barreto é um dos cronistas da vida carioca no começo do século XX. Seus romances são observações do dia-a-dia do Rio antigo. Um ficcionista de costumes. A partir do Rio, a corte brasileira, Lima talvez pretendesse iluminar algumas coisas do universo nacional. Machado de Assis fez algo parecido antes, porém com uma estética mais refinada e uma linguagem que se era simples como a de Lima era mais depurada. Mas há um Rio subterrâneo a que o estilo de escrever de Machado não tem acesso; só com o verbo aqui e ali tosco (embora sempre preciso e rico) de Lima é que este Rio pode vir à literatura.

Numa e a ninfa (1915), que é uma semi-aliteração em seu título, é um romance político no sentido em que a ambientação e as motivações das personagens se circunscrevem ao político. No seu prefácio clássico para o livro, o crítico João Ribeiro apontara naturalmente: “É realmente um dos raros livros que espelham, com verossimilhança senão com fidelidade, os vícios e costumes da sociedade política.” Segundo o ensaísta Antonio Arnoni Prado, os problemas de construção da narrativa de Lima nascem de sua natureza de relato híbrido, que apareceu originalmente como um conto, depois se desenvolveu num folhetim (hábito comum no século XIX) e acabou armando-se em livro —os aspectos difusos do resultado final de Numa e a ninfa dão tanto sua liberdade formal (como ocorria frequentemente com Machado de Assis, especialmente Memórias póstumas de Brás Cubas, 1981) quanto uma desarticulação que permite ao leitor ver tudo como uma sucessão de crônicas (ou instantâneos da cidade do Rio de antigamente) forçada em romance.

O protagonista é Numa, um arrivista político, empurrado por seu sogro, um homem de posses, para a carreira política; seu arrivismo é tão cínico e amoral que Numa condescende com os pecadilhos adúlteros da mulher, Edgarda, embeiçada pelo próprio primo dela. “O grande debate que provocara na Câmara o projeto de formação de um novo Estado na Federação Nacional apaixonou não só a opinião pública, mas também (é extraordinário!) dos profissionais da política.” Lima é acido, sarcástico, satírico com todas as ações de suas criaturas. Adota, para seus dizeres, uma linguagem cujo veio jornalístico direto poderia aproximar-se de Machado mas traduz outro naipe, outra naturalidade, buscando um certo tom desabusado de que o rigor de Machado está longe. Os defeitos vistos pela cátedra na literatura de Lima são também seus melhores condimentos literários; ambiguamente os desleixos linguísticos e dramáticos impediram ao escritor os voos maiores mas também lhe deram uma voz única para estas situações tão brasileiras, tão à margem apesar de agudamente urbanas.

O caráter pusilânime de Numa, sua vertente de “Maria vai com as outras”, é o mesmo de Isaías, outro rebento de Lima, que escreveu em suas imaginadas “recordações”: “A minha individualidade não reagia; portava-se em presença do querer dos outros como um corpo neutro; adormecera, encolhera-se timidamente acobardada.” Numa é também assim como Isaías: sua atividade política é invenção do sogro e suas ideias sobre o país são aquelas dos discursos que Edgarda, sua mulher, escreve para ele dizer na Câmara. O golpe dos golpes se dá no final matreiro, quando ele surpreende, sem que o vejam, a esposa e o primo escrevendo o discurso e às vezes se beijando —o adultério de Edgarda com o primo casa-se jocosamente com o que há de ridículo nas pretensões políticas de Numa. “A porta estava fechada. Abaixou-se e olhou pelo buraco da fechadura. Ergueu-se imediatamente... Seria verdade? Olhou de novo. Quem era? Era o primo... Eles se beijavam, deixando de se beijar, escreviam.” Já não estamos diante do adultério obscuro e metafísico de Capitu para Bentinho; a classe de personagens de Numa e Edgarda é mais vulgar, tem mais relações com certas trivialidades à Eça de Queirós. E a solução final está distante das torturas mentais inquietantes de Bentinho. Depois de ver a cena em que é traído em sua própria casa, sob seus próprios interesses, de ponderar (“a carreira... o prestígio... senador... presidente... ora bolas!”), Numa faz o que lhe cabe, como bom fruto da árvore de Lima: “pé ante pé, para o leito, onde sempre dormiu tranquilamente.”

Em Numa e a ninfa o leitor topa uma apocalipse do cotidiano, caricatural e pessoal. Assim: apocalipse no feminino, como no grego, no latim e em francês; e tal como Lima usou o vocábulo  em seu texto: “O despeito dos políticos com a candidatura de Xisto foi ao encontro da apocalipse militar.” Numa e a ninfa está à distância duma obra-prima; mas traz certas delícias cariocas de Lima que nenhum outro ficcionista poderia compor. Os diálogos têm uma vivacidade única, apesar de certos torneios da frase serem muito antigos, e os corpos narrativos combinam muito bem com estes diálogos. Para deleite de quem quer desfrutar uma genuína literatura brasileira.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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