A Navegação Intelectual de Piglia

Escrito sob a atmosfera da ditadura militar argentina, Respiração artificial tenta captar, ali no limite entre o ensaio e a ficção, onde se dão os desvios da história

01/12/2018 23:33 Da Redação
A Navegação Intelectual de Piglia

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O argentino Ricardo Piglia foi um dos ficcionistas do século XX que fizeram de seus romances portas de ensaio. Respiração artificial (Respiración artificial; 1980) é um dos mais bem-sucedidos romances-ensaio; as considerações teóricas que inundam a narrativa, misturando-se com os fatos do cotidiano, ganham uma dinâmica ficcional que, a despeito do título do livro, nada tem de artificial ou esquemático. Narrado em primeira pessoa por uma personagem chamada Emilio Renzi (lembremos que o nome do autor é Ricardo Emilio Piglia Renzi e faleceu em seis de janeiro de 2017, ou seja, esteve um pouco como um homem do multifacetado século XX), Respiração artificial tem algumas divagações epistolares que remetem mais ao memorialismo melancólico e um pouco cínico que à forma epistolar clássica dos franceses Choderlos de Laclos ou Honoré de Balzac; mas o centro da história  na verdade são as coisas em torno da figura Renzi, um incipiente e curioso escritor, que sai no rastro da fugidia evocação de um tio, que, no constrangido folclore familiar, “desaparecera seis meses depois do casamento, levando todo o dinheiro da senhora sua esposa, para se juntar com uma bailarina de cabaré conhecida pelo nome de Coca.” Renzi, o protagonista, estaria construindo sua história, que Piglia, o escritor de verdade que também é Renzi, a partir das cartas que teria recebido deste tio longínquo que agora torna em palavras, transcreve. “Começamos a nos escrever e escrevemo-nos durante meses.” Não é um epistolar direto: “Não tem sentido reproduzir todas as cartas.” O memorialismo pós-pós-proustiano substitui e traduz muitas vezes a narrativa epistolar. “Quase um ano depois eu avançava na direção dele, morto de novo, no vagão desmantelado de um trem que seguia viagem para o Paraguai.”  As correspondências do tio conduzem a meditação sobre a obra de um professor de história, que por sua vez vai dar em pesquisas de outro intelectual, o senhor Tardewski.

Depois de vários círculos hábeis e sensíveis em torno da literatura argentina e internacional, de Borges a Wittgenstein, Tardewski, e o próprio livro de Piglia, vai ter a um ponto exacerbado de sua teoria ao imaginar um encontro, em 1909, entre o escritor tcheco Franz Kafka e político alemão Adolf Hitler, ambos totalmente desconhecidos e mergulhados em suas sombras e nas sombras duma cidade como Praga. “A utopia atroz de um mundo transformado numa imensa colônia penal, é disto que lhe fala Adolf, que sabe ouvi-lo, nas mesas do Café Arcos, em Praga, em fins de 1909. E Kafka acredita nele. Acha que é possível que os projetos impossíveis e atrozes daquele homenzinho ridículo e famélico se realizem e que o mundo se transforme naquilo que as palavras estavam construindo: o Castelo da Ordem e da Cruz gamada, a máquina do mal que grava sua mensagem na carne das vítimas. Então ele não soube ouvir a voz abominável da história?” Aduz-se ainda: “O gênio de Kafka está no fato de ter compreendido que se aquelas palavras podiam ser ditas, então é porque podiam ser realizadas.” O terrível da literatura: “Kafka fez, em sua ficção, antes de Hitler, o que Hitler lhe disse que ia fazer.”

Escrito sob a atmosfera da ditadura militar argentina, Respiração artificial tenta captar, ali no limite entre o ensaio e a ficção, onde se dão os desvios da história. O fictício diálogo entre os desconhecidos Franz e Adolf, em Praga, no alvorecer do século XX, como antecipação do que fariam os depois famosos Kafka e Hitler em suas atividades, é o holofote que permite a Piglia, como ocorrera a Kafka, estar “atento ao murmúrio enfermiço da história.”

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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