As Digressoes de Zulawski

Um filme t?o irregular e belo quanto os outros que conhecemos de Andrzej Zulawski por aqui

26/08/2023 01:05 Por Eron Duarte Fagundes
As Digressoes de Zulawski

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Cosmos (Cosmos; 2015) foi o último filme rodado pelo cineasta polonês Andrzej Zulawski. É seu testamento em imagens. Ele faleceria no começo de 2016. Como se depreende deste seu trabalho terminal, Zulawski permaneceu, até o último suspiro, fiel a uma forma radical, estranha e descosida de fazer cinema, sem concessão de nenhuma espécie ao paladar do público. Zulawski era um artista consciente destas ousadias e dos tropeços destas ousadias; mas não se curvava, não entregou os pontos nunca. Cosmos é um filme tão irregular e belo quanto os outros que conhecemos dele por aqui; talvez os pontos desconexos de sua linguagem cinematográfica pareçam mais truncados e menos brilhantes que em alguns outros momentos de sua trajetória, mas era o que ele queria fazer, o que lhe coube fazer: mostrar à sociedade uns agudos dentes cinematográficos.

Cosmos foi feito na França para o produtor Paulo Branco (um indivíduo que sempre esteve ligado aos riscos dos filmes mais obscuros e empenhados). Zulawski construiu seu roteiro a partir dum romance homônimo polonês de Witold Gombrowicz, publicado em 1964. As citações literárias, cinematográficas abundam. No começo, Fuchs refere a seu amigo Witold uma assertiva do escritor russo Tolstoi sobre a desconexão entre a moral e a beleza. Depois envereda por Sartre, alude à revista Tempos Modernos, lembra que Sartre errou tudo (refere-se a suas previsões sociais ou políticas, imagina-se), misturando com a citação anterior a Tolstoi, aduz “como Tolstoi” para equiparar as teses do russo às previsões de Sartre, erros. Witold, caminhando com cacoetes, lembra a Fuchs que para ele Tempos Modernos é Chaplin: claro, o antigo filme tem o mesmo nome da revista de Sartre. Passam mais adiante pelas citações o romancista Stendhal e a crueza do diretor de cinema Pasolini. Pasolini pode ser uma boa referência do cinema de Zulwaski: uma etnia estética. Mas certas exacerbações absurdas de situações e personagens em Cosmos levam naturalmente a Buñuel. Em A mulher pública (1984) em certa cena vemos um cartaz do filme E o vento levou... Em Cosmos deparamos um cartaz onde se lê, em francês, “moral, beleza e voluptuosidade”, mas não sabemos (o plano da imagem é lá pelo terceiro ou quarto estrato da imagem, estamos presos nos diálogos dos primeiros planos) se se trata dum filme, duma pintura ou o quê.

A figura do produtor Paulo Branco traz coisas lusitanas. A jovem e bela atriz portuguesa Victória Guerra num dos papéis centrais. E a leitura, em francês, dum poema de Fernando Pessoa. Mas a cena interpretativa está mesmo com Sabine Azéma como a tia daquela casa de loucos aonde vão parar os rapazes Fuchs e Witold no começo do filme. Sabine foi atriz constante de seu marido Alain Resnais, que morreu em março de 2014; o filme de Zulawski foi rodado no fim de 2014, entre o meio de novembro e fim de dezembro, aí Sabine já estava viúva e liberada para atuar em outras plagas. Clémentine Pons, compondo uma estranha figura de lábio deformado com uma saliência, é também um dos achados da realização. O enforcamento de bichos, especialmente de um gato, à socapa, pelo estranho Witold, é um dos estribilhos visuais da narrativa; no fim de A mulher pública a personagem do cineasta dentro do filme morre enforcada (ou é a personagem da personagem do cineasta que morre); enforcamentos, signos tortuosos do cinema de Zulawski.

Cosmos tem digressões, desconexões, perturbações. Não são falhas, todavia. É assim que Zulawski filma.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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