A Lamúria de Otto e Seu Belo Filme

Até que a Sbórnia nos Separe se inspira livremente na peça Tangos e tragédias, dos atores Hique Gomez e do falecido Nico Nicolaieswsky

18/11/2014 12:52 Por Eron Duarte Fagundes
A Lamúria de Otto e Seu Belo Filme

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Na sessão do Clube de Cinema de Porto Alegre, no sábado de oito de novembro de 2014, o realizador (de desenhos animados) Otto Guerra exibiu, em seu discurso, as tensões de sua trajetória cinematográfica. Circulando de festival em festival, fazendo os filmes que quer fazer e extrapolando de seu meio provinciano (ele estava prestes a ir para um festival em Madri, falava num famoso festival de animação em Annecy, na fronteira da França com a Suíça, açulando nossa imaginação de viajante e cinéfilo), Otto desfiou seu espanto diante da ausência do público nas sessões de seu novo filme, Até que a Sbórnia nos separe (2013), apesar da carregada mídia que ele e sua produtora assestaram para as plateias. Por que a surpresa, velho Otto?

Antes de mais nada, um artista (que faça um filme, uma música, um livro) deve saber o que está fazendo antes de se queixar do público. Alguém já imaginou o diretor brasileiro Júlio Bressane, o suprassumo do experimental em nosso cinema, lamentar a ausência do espectador majoritário em seus filmes? Até que a Sbórnia nos separe se inspira livremente na peça Tangos e tragédias, estrondoso sucesso de público desde 1984 dos atores Hique Gomez e do falecido Nico Nicolaieswsky, a este último o filme é dedicado como a alguém que partiu para a Sbórnia, ou deixou a Sbórnia, antes dos outros. A peça, sabe-se, transformou-se muito ao longo dos anos, adaptou-se à época de suas encenações. Otto a viu em 1984 mesmo, ano em que ele, Otto, rodou sua primeira animação, O natal do burrinho (1984). Mas Até que a Sbórnia nos separe é um outro tipo de realização artística. A simplicidade de seus desenhos e as referências culturais históricas (alguém está lendo Macunaíma, de Mário de Andrade, outrem está folheando a revista “O cruzeiro”, uma e outra leitura quase baús de antiguidades nos interesses de hoje, além de clássicas canções de outrora para embalar alguma nostalgia) têm uma austeridade que o afasta um pouco das facilidades populares da peça, apesar de ainda contar com as vozes de Hique e Nico. Otto pensava estar fazendo um filme de massa e o que faz é um belo filme referencial, levemente anacrônico e que exige um pouco mais de cabeça e engenho do que pensa o próprio realizador.

Um dia depois, conversando comigo no saguão de um cinema, o crítico gaúcho Hiron Goidanich fez uma observação que diz muito da perplexidade surpreendente de Otto e da própria ausência do público: dizia-me Goida que o filme de Otto está mais para Franz Kafka do que para Tangos e tragédias. Aí se encontra a raiz da lamúria de Otto; fez algo diferente do que pensa que fez.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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