O Voo dos Versos

Natural de Porto Velho, Rondonia, Cristina Paragassu vive no Rio ha decadas

17/03/2026 03:32 Por Eron Duarte Fagundes
O Voo dos Versos

Imagens: Internet

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Natural de Porto Velho, Rondônia, Cristina Paragassu vive no Rio há décadas. Cinéfila das mais aparelhadas, é artista plástica engenhosa na fusão de cores e linhas para materializar figuras que saem de sua mente para as mãos e as tintas; uma de suas séries pictóricas chama-se “tempestade de cores”, um pouco de surrealismo, um pouco do impressionismo, algo à sombra do cubismo (mesmo sem os cubos). Cristina faz também poesia das mais belas em sua fusão do rigor formal  (o apuro da linguagem, que nasce de seu elaborado aparelhamento cultural) com o pensamento que voa direto ao coração das coisas. Silêncio inaudito (2003), um opúsculo independente, às expensas da própria autora, traz sua natureza de poeta que se afigura um pós-modernismo brasileiro de dizer as coisas mais de cem anos depois de Mário de Andrade e Oswald de Andrade.

“Quisera o tempo me ensinar

  Como perder o medo

         Para escrever

E vendo a letra se desenhar

     Saber o quanto sei

      Mas não queria ser”

A visão poética de Cristina traz surpresas que são tanto formais quanto temáticas. O ritmo submete ao mesmo tempo em que se submete à ideia.

“Poesias são

como lágrimas de sangue”

E a imagem complexa, ensaio em poucos versos, que voam:

“Poesias são palavras mortas

encontradas nos ferros velhos

lidas em lápides de cemitérios

           mas ditas

                             criam vida”

Num tempo aparentemente não-poético, como este em que vivemos, onde a poesia parece ter morrido, Cristina a ressuscita. “Quero fazer versos como quem respira”. O francês Arthur Rimbaud tinha algo disto: a respiração poética, ou mais precisamente a respiração da poesia. Poesia, mesmo escrita, vista/lida na frieza e indiferença da página, pode trazer um som no imaginário leitor:

“              turvos olhos

de maresia                     onírica

      voa

               velejando

vistoria espólios

                             ossos

                              secos

                                          em portos

desertificando-os”

A disposição gráfica parece ter uma plástica que acompanha a parte sonora do texto. O reino verbal é um pouco o do simbolismo. Aliterações. Reiterações de fonemas. Como em Cruz e Sousa: só que menos estridente ou barroco. Em Cristina a utilização dos recursos evoca sua capacidade (como poeta) de se valer dos signos de que a língua portuguesa dispõe. Sua poesia em Silêncio inaudito (a palavra lida em silêncio, talvez) vai novamente aduzir aos escaninhos linguísticos, nas tensões entre escrita, sons e significados.

“Ah!

ou Há

de  haver”

Antes, lá atrás, “sons sonolentos ninam os pensamentos”. Silêncio inaudito é como se fosse escrito ao entardecer para se ler numa rede na casa de praia esperando os sons que vem dos sonhos, “turvos” e “velejando”.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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