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Rastros de Ódio: Um Western ainda de proporções épicas

Recentemente reprisado no Cinemark, a obra-prima continua intacta

24/02/2015 12:57 Por Paulo Telles
Rastros de Ódio: Um Western ainda de proporções épicas

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Um destes artistas que jamais utilizam a palavra Arte
e um destes poetas que jamais falam de poesia
– assim o grande cineasta francês François Truffaut (1932-1984)
se referiu a John Ford (1895-1973)

 

Recentemente, o Cinemark andou reprisando em suas salas dentro de uma maratona de clássicos que a empresa vem relançando, uma das obras primas deste grande mestre da Sétima Arte. Naturalmente, não temos hoje em dia as telas para as projeções em Vistavision, formato original deste grande espetáculo, contudo, o Cinemark recepcionou muito bem para sua plateia este monumento Fordiano, que ocorreu nesta semana de folias, nos dias 14, 15, e 18 de fevereiro último. Rastros de Ódio (The Searchers) ainda detém o poder e a majestade de ser um dos maiores clássicos do cinema, ainda sob aplausos de espectadores das mais variadas idades, passados quase 60 anos de seu lançamento.

John Ford é tido como o Mestre do gênero Western, o verdadeiro pai deste estilo cinematográfico. Um autêntico contador de Histórias vindas de um filho de imigrantes irlandeses. Durão, brigão, turrão, ele nasceu a 1º de fevereiro de 1895 em Cape Elizabeth, Maine, na fazenda de seus pais. Mais tarde, a família se mudaria para Portland, onde Jack (como Ford seria chamado até 1923), passou a infância e a adolescência, e seu verdadeiro nome era Sean Aloysius O’Feeney.

Sean seguiu diretamente dos bancos escolares para Hollywood, onde lidou com problemas de direção desde 1916 (apenas dois anos depois da estreia cinematográfica de outro gênio, Charles Chaplin). Por esta razão que é perfeitamente compreensível a ausência de intelectualismo nas obras do diretor, numa trajetória tão ampla e substanciosa de Westerns, que formam no conjunto, sua contribuição mais rica e monumental. Por esta carência de intelectualismo em seus filmes é que é considerado também como um cineasta direto, prático, e objetivo, simplesmente John Ford.

Rastros de Ódio, produzido em 1956, apresenta John Wayne (1907-1979) talvez na maior interpretação de sua carreira, digna de um prêmio da Academia (com desempenho superior mesmo ao seu Rooster Coburn, por Bravura Indômita, em 1969, filme que lhe deu sua única estatueta de melhor ator), e onde esbanja uma performance clássica, na pele de Ethan Edwards, Ex-Confederado que se empenha obstinadamente na procura de sua sobrinha, Debbie (Natalie Wood, 1938-1981), raptada pelos comanches. Na fase infantil da personagem, quem a interpreta é Lana Wood, irmã mais nova de Natalie.

Não é de desconhecimento que grande parte da obra de Ford no gênero western teve como cenário o Monument Valley, no Arizona, onde fora rodada toda sua trilogia sobre a Cavalaria Americana (Fort Apache, Legião Invencível, Rio Grande), além de Audazes e Malditos (1960) e Crepúsculo de uma Raça (1964). Com isso, tendo mais uma vez por décor a fascinante e esplendorosa beleza do local, no Estado de Utah, Rastros de Ódio conserva os elementos dramáticos do faroeste tradicional, por seu estilo peculiar, épico e lírico, onde o cineasta descreve a odisseia de Ethan e de seu sobrinho adotivo com quem não se dá muito, o meio índio Martin Pawley (Jeffrey Hunter, 1925-1969), na perseguição aos comanches que raptaram a menina Debbie, e isto tudo num relato de tensão ininterrupta e de grandeza plástica e cromática, segundo as palavras do finado crítico Paulo Perdigão – ainda tendo a fotografia impecável de Winton. C Hoch (1905-1979), originariamente em Vistavision, que se situa entre as mais belas do gênero.

Apenas três anos depois de terminada a Guerra Civil Americana, Ethan Edwards volta ao seu lar no Texas. Reencontra a mulher por quem ele era apaixonado, Martha Edwards (Dorothy Jordan), casada com seu irmão, Aaron (Walter Coy, 1909-1974), ao passo que foi por este exato motivo que demorou tanto tempo para voltar para casa após o fim da guerra. Solitário, taciturno, fechado, parece mesmo só ter afeto pela cunhada e pela sobrinha mais nova, Debbie (Lana Wood).  Contudo, apesar da aparente tranquilidade e da vida familiar feliz, principalmente com a chegada do tio Ethan, o Texas vive cercado com a ameaça dos índios comanches, que estão roubando e matando o gado dos rancheiros.

Para isso, o excêntrico Capitão dos Texas Rangers, o reverendo Samuel Clayton (Ward Bond, brilhante no papel) reúne um grupo de homens e batedores para pega-los. Ethan, que odeia os índios, se surpreende que o menino que havia salvo anos atrás de um ataque indígena, crescera e se tornou um mestiço, o jovem Martin Pawley (Jeffrey Hunter). Ethan, mesmo com sua rudeza, sabe que Martin não tem culpa pelas suas origens, mas mesmo não sendo seu sobrinho de sangue, ele sabe que sua cunhada e seu irmão que o adotaram, o tratam como um filho.

Durante uma jornada da Patrulha do Capitão Clayton na perseguição aos Comanches, onde acompanham Ethan e Martin, a fazenda dos Edwards é invadida pelos Comanches. Todos são mortos, chacinados, e apenas Debbie é salva, sendo raptada pelo chefe da tribo, Cicatriz/Scar (Henry Brandon), que com os anos, acaba sendo uma de suas Squaw, interpretada por Natalie Wood. É presumível a nefasta e terrível visão que Ethan teve ao ver o corpo da mulher que ama, violentada e morta brutalmente, tão logo chegam ao rancho todo destruído e saqueado.

A partir de então, Ethan e Martin buscam no Texas e no Novo México a sobrinha raptada numa caçada implacável e sem fim, indômita marcha que consome anos sem esmorecimento ou desistência, muito embora os dois já saibam que passado tantos anos, a garota já não pertence mais à cultura branca.

Mal recebido na época de seu lançamento (e muito mal interpretado por alguns críticos), Rastros de Ódio só veio a ser reconhecido como obra prima quase duas décadas depois, após ser incluso numa lista importante entre os dez melhores filmes de todos os tempos, quase no fim na década de 1970. Talvez pela mensagem aparentemente racista do filme, não veio inicialmente a ter uma boa impressão, mas o cineasta francês Jean-Luc Godard, conhecido por seus trabalhos polêmicos, anárquicos e vanguardistas, assistiu esta obra de John Ford e reconheceu a esplendorosa atuação de John Wayne, que politicamente Godard o odiava, mas acabou se rendendo e se derretendo as lágrimas pela atuação de Duke. Godard reconheceu, pela “Magia do Cinema”, ser humilde o suficiente para se ajoelhar perante o grande ator John Wayne, mesmo com todas suas diferenças (e até ódio, repete-se!) que sentia profundamente pelo ator, por sua posição reaccionariamente política. 

Ethan odeia os comanches, mas fiel ao mandamento militar de "conheça seu inimigo", se mostra um conhecedor do modo de vida dos nativos. Algumas "lições":

1) Ethan diz que os comanches amarram as montarias a si próprios, quando dormem, evitando que seus inimigos espantem os cavalos.

2) Ethan diz que um comanche em fuga, ao contrário de um homem branco que desmonta quando o cavalo está cansado, continua a cavalgada até escapar ou o cavalo morrer. E depois disso, come o cavalo.

3) Ethan atira nos olhos de cadáveres de índios. Explica que é uma vingança, pois segundo a crendice comanche isso é uma das piores coisas que podem acontecer, pois eles acreditam precisarem dos olhos intactos para se guiarem no "outro mundo".

Rastros de Ódio foi citado pelo ex-crítico do Time, Jay Cocks, como o “mais admirável filme já produzido na América”, conquistou o prêmio de “melhor Western da década de 1946/1956, que foi atribuído a Western Historical Society, entidade responsável por preservar a cultura do Oeste Americano.

Como não podia deixar de acontecer, velhos colaboradores de Ford participam da aventura, como Ward Bond (1903-1960), este em desempenho fenomenal como o engraçado Capitão dos Texas Rangers Samuel Clayton; além de Bond, Harry Carey Jr (1921-2012) filho do lendário Cowboy do Silent Movie Harry Carey; também  Ken Curtis (1916-1991), Hank Worden (1901-1992), Dorothy Jordan (1906-1988) e Antonio Moreno (1887-1967) – a chamada Ford’s Stock Company – e um elenco onde figuram ainda Vera Miles (no papel de Laurie Jorgensen, a namorada de Martin) e Henry Brandon (1912-1990), notável vilão do cinema, que desempenha um dos mais famigerados peles vermelhas da história dos Western’s Movies, o Chefe comanche Cicatriz (Scar).

Interessante contar que o script foi redigido por Frank S. Nugent (1909-1966), Ex-Crítico do New York Times (que escreveu o roteiro em plena viagem em alto mar), a partir do romance de Alan Le May (1899-1964), sendo um dos grandes responsáveis pela permanência desta obra que figura como uma das mais expressivas de todos os tempos, um marco do faroeste moderno , seguramente em pé de igualdade com outras obras de Ford , como No Tempo das Diligências, Paixão dos Fortes, e O Homem que Matou o Facínora, criações máximas da grande obra fordiana. A Trilha sonora é de Max “Casablanca” Steiner (1888-1971). Pura e simplesmente, The Searchers é uma obra inesgotável, que perdurará ainda por gerações que aplaudirão de pé em qualquer das reprises nas salas de exibição.

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Sobre o Colunista:

Paulo Telles

Paulo Telles

Paulo Telles é natural do Rio de Janeiro, onde nasceu em 1970. Mora na mesma cidade na região boêmia da Lapa. Curte cinema desde a adolescência, e através das matinês da TV, aprendeu a amar a Sétima Arte e os astros e estrelas do passado. Ele é o editor do blog FILMES ANTIGOS CLUB, acessível em: http://www.articlesfilmesantigosclub.blogspot.com.br/, espaço dedicado a matérias relacionadas ao cinema antigo, com biografias e resenhas de alguns filmes. Também é locutor da Escola de Rádio Web. Email: filmesantigosclub@hotmail.com ou paulotellescineradio@r7.com

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