EM DVD: A Verdade Sobre Marlon Brando (Listen to Me, Marlon)

O documentário apesar de omissões, ajuda o desvendar o mito, respeitar a lenda

21/12/2015 12:16 Por Rubens Ewald Filho
EM DVD: A Verdade Sobre Marlon Brando (Listen to Me, Marlon)

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A Verdade sobre Marlon Brando (Listen to Me, Marlon)

EUA, 15. 103 min. Documentário. Direção de Stevan Riley.

Já esta disponível em DVD este polemico documentário que faz muito sucesso nos Estados Unidos e já esta na lista de 15 finalistas para a seleção dos cinco mais votados que concorrerão ao Oscar. Marlon Brando (1924-2004) sempre foi uma figura polêmica, mas jamais poderíamos imaginar que ele gravou uma quantidade imensa de fitas em áudio onde registrava seus pensamentos e principalmente sua infância complicada (ambos os pais eram alcoólatras) .Foi um tesouro que chegou aos produtores /diretores que tentaram fazer um filme digno deste personagem lendário que passou toda sua vida em situações inusitadas, seja com o seu estilo de representar revolucionário (ele credita por isso sua professora Stella Adler que o introduziu ao Método de Stanislawski). Todo o trabalho aqui foi feito com muito cuidado, rodado na própria casa do ator e usando como referencia o fato de que ele antes de morrer mandou gravar seu rosto digitalizado (é a imagem recorrente que unifica o filme).

Tem outro mérito ou talvez decepção. Brando foi talvez o ator mais polêmico e discutido do século passado. Mas o filme evita afirmações polêmicas sobre sua sexualidade ou críticas mais fortes à política e ao governo. Já que chegou a recusar um Oscar por causa do tratamento indigno que o governo americano e o cinema deram aos nativos americanos. Ou seja, o lado sensual ou dark de sua vida não é tocado (ainda que abra e depois conclua com a crise em sua casa, quando o filho mais velho matou o namorado de sua irmã, que por sua vez se suicidou). Um drama da vida real que deveria ter sido mais aprofundado. Ouso dizer que para o fã de Brando não chega a ter nada de muito novo. Já se sabia que ele odiou A Condessa de Hong Kong dirigido por Chaplin, que brigou com Bertolucci que o fez se inspirar em sua própria vida para fazer O Último Tango em Paris (provavelmente seu melhor trabalho na maturidade). Mas tem as cenas dos seus primeiros filmes, em particular Um Bonde chamado Desejo ou Uma Rua Chamado Pecado, Sindicato de Ladrões e Viva Zapata. E depois O Poderoso Chefão, mas nada do único filme que dirigiu, o belo faroeste A Face Oculta!

Quando eu era criança se falava muito em Marlon Brando como o maior ator de sua geração. Suas excentricidades, seu lendário talento, seu tremendo ego, suas manias e romances (preferência acentuada pelo exotismo, foi casado com uma tahitiana, Movita, uma mexicana mais velha que ele. E uma morena que se fez passar por indiana, Anna Kashfi. Rita Moreno uma porto-riquenha tentou se matar por ele, Pina Pellicer a mexicana que ele dirigiu em A Face Oculta se matou logo depois das filmagens etc.).Também fez Napoleão em Desiree, ao lado de Jean Simmons (eu preferia o estilo natural dela, os dois estariam juntos também em Eles e Elas/Guys and Dolls, o musical em que ambos cantavam, ela certamente melhor que ele), o Brutus que ele interpretou no Júlio Cesar de Shakespeare (que é tão esquisito que eu não sabia se ria ou levava a sério). Enfim, não via na tela o que justificasse tal furor.

Curiosamente Brando achava superestimado seu trabalho em Sindicato dos Ladrões. Eu mesmo nunca achei essas maravilhas. Em parte porque era uma justificava da delação em parte pela mania de Brando de gostar de cenas em que leva surras, aparece todo arrebentado (preste atenção, quando ele pode sempre tem uma cena assim, por exemplo em O Grande Motim, Caçada Humana). Tudo isso para dizer que para minha geração que se formava Brando era um modelo, o “ator” por excelência como talvez hoje as pessoas pensem em Robert DeNiro ou talvez Kevin Spacey em determinado momento, ainda que mal comparando porque ambos foram beber na fonte que Brando abriu (para se ter uma ideia todos os grandes de ali em diante, o venerável Paul Newman, o mítico James Dean, foram vistos como imitadores de Brando que criou o estilo de interpretar que passou a ser visto como o do Actor´s Studio, o chamado Método de interpretação criado na Rússia por Stanislawski e aperfeiçoado por Lee Strasberg e outros em Nova York no final dos anos 40, começo dos 50.

Cheguei a perguntar a Elia Kazan sobre Brando, que confirmou o excepcional talento que Brando tinha que era até assustador, era uma força da natureza quando ele o dirigiu no primeiro grande sucesso de antes, a peça A Streetcar named Desire (Um Bonde chamado desejo) que depois virou em filme Uma Rua Chamada Pecado, o belo texto de Tennessee Williams. A cena em que Brando entra na casa da mulher Stella, tira a camisa, se lava na pia, sob o olhar assustado mas interessado da cunhada Blanche Du Bois, é certamente o momento mais erotizado da figura masculina no cinema até então. Era sensualidade pura (coisa que na época ninguém sabia dizer). Eram tempos mais ingênuos e o choque era até cultural. Ninguém fazia como ele, falando com a boca cheia, cuspindo, grosso mesmo, mas com enorme verdade, carisma, força, garra, presença. Não falava tudo certinho como era moda no teatro de Laurence Olivier, falava como na vida, por vezes até exagerando (parecia que tinha uma batata quente na boca). Mas quem ver o Stanley Kowaslki dele nesse trabalho irá entender tudo. O impacto que Brando causou (dizem que ele era bonito demais até quando quebrou acidentalmente o nariz o que lhe roubou a perfeição mas ajudou na carreira porque lhe deu caráter) e porque provocou tanta imitações.

Parecia que ele tinha uma fome insaciável de tudo, de sexo, de viver, de comida, porque isso mesmo como a figura do Pantagruel, ficamos chocados em ver Brando no fim da vida setentão com uma figura enorme , até balofo (o documentário também passa por cima disso). Fazia todo sentido, ele sempre foi um homem de excessos, de apetites vorazes, de grandes paixões, grandes escândalos e muitas loucuras (lembrem que ele comprou um arquipélago no Tahiti onde viveu anos cercado de concubinas e filhos variados).

Claro que ele é uma lenda e hoje não dá mais para separar da realidade. É famosa sua dificuldade para guardar diálogos e texto (e os papéis que vivia colocando no cenário ou nos outros atores para ler o que tinha a dizer, hoje mais prático usa um ponto no ouvido para lhe passarem o texto). É igualmente notório o dinheiro que ganhou (milhões por algumas cenas como no Superman I, mas bem gastos, porque foi Brando que deu credibilidade ao projeto).

Mas ninguém tão carismático. O documentário mostra também Apocalypse Now ( onde aparecia de cabeça raspada, dizendo frases sem sentido ou politizadas mas só mesmo um Brando para justificar toda aquela jornada pelo inferno pelo qual passa o personagem). Ou seja, uma lenda a gente não discute, aprecia ou rejeita, tampouco se pode negá-la. O documentário apesar de omissões, ajuda o desvendar o mito, respeitar a lenda, ou, para uma nova geração, descobrir talvez o maior astro de Hollywood na segunda fase do século passado. Mas não seria divertido se este filme ganhasse um Oscar no final das contas? O prêmio que ele tanto desprezou!

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Sobre o Colunista:

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Seus guias impressos anuais são tidos como a melhor referência em língua portuguesa sobre a sétima arte. Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de “Éramos Seis” de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o “Dicionário de Cineastas”, editado pela primeira vez em 1977 e agora revisado e atualizado, continuando a ser o único de seu gênero no Brasil.

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