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O Ar Quente do Brooklyn

Faça a Coisa Certa foi lançado em 1989 e, por um motivo nada agradável, continua em sintonia com os nossos tempos

07/05/2017 23:17 Por Bianca Zasso
O Ar Quente do Brooklyn

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A primeira vez no bairro do Brooklyn, em Nova York, ninguém esquece, mesmo que ela aconteça na ficção. E não devem ter sido poucos os que adentraram no reduto conhecido por ser o lar de imigrantes e negros pelas mãos, e imagens, do cineasta Spike Lee. Num ano onde a violência ligada ao preconceito racial foi o tema de produções importantes, como os documentários Eu não sou seu negro, de Raoul Peck e 13ª Emenda, de Ava DuVernay, rever um dos trabalhos mais importantes da filmografia de Lee é mais que necessário. Faça a coisa certa foi lançado em 1989 e, por um motivo nada agradável, continua em sintonia com os nossos tempos. Mas antes de chegarmos ao clichê “nada mudou”, vamos rebobinar a fita para o começo, já que era isso que se fazia no fim dos anos 80.

Faça a coisa certa começa hipnotizante. A iluminação em tons de vermelho e as coreografias executadas pela atriz Rosie Perez dão o recado do que virá nas próximas horas: o calor insuportável do Brooklyn é parte da direção de arte, já que o suor no rosto dos atores não é apenas para dar mais verossimilhança às cenas. As gotas escorrendo são parte do pacote do bairro e é com elas aparecendo, muitas vezes em close, que somos apresentados aos vários personagens da trama. Os diálogos ritmados, os figurinos coloridos e os tijolinhos à mostra dos prédios vão, aos poucos, tornando-se familiares para os espectadores. A câmera de Spike Lee e seus ângulos inesperados faz as honras da casa, mergulhando quem assiste numa atmosfera de rap, jazz, salsa, geladinhos, ventiladores fracos e fatias de pizza. A pizzaria, o reduto italiano comandado por Sal e seus filhos, é ponto de encontro e, mais tarde, de discórdia.

O que de início parece uma guerra entre ítalo-americanos e afro-americanos por uma união que faça reinar a paz no bairro, ganha proporções de tragédia. E ela vem ao som das sirenes da polícia. Ava DuVernay foi direto ao ponto em seu documentário para mostrar que o negro, nos Estados Unidos, associa policiais ao medo. As batidas realizadas sempre serão mais severas com quem tem a pele mais escura. Poucos querem falar sobre isso, mas basta uma olhada em volta para perceber. O que acontece com o personagem de Radio Haheem, interpretado por Bill Nunn, é violento por si só, mas o impacto torna-se maior por Faça a coisa certa ser permeado por piadas. Ver latinos e negros trocando ameaças provoca risos dos quais quase iremos nos arrepender após os créditos finais. Spike Lee esfrega na nossa cara o que acontece quando, no meio de uma confusão num bairro aparentemente feliz, um negro se exalta. Não importa contra quem, não importam seus motivos. Sem perguntas. Sem explicações.

Revolucionário na indústria cinematográfica não apenas por criar um estilo para os chamados “black films”, mas principalmente por usar de ironia e inteligência para ter seu discurso ouvido, Faça a coisa certa se revela um novo e impressionante filme a cada revisão. É bom cinema, antes de qualquer questão social, e só por isso merece ser sempre lembrado e debatido. Nos lembra que não precisamos separar as coisas em caixinhas e que não devíamos levar em conta se é um filme de branco ou um filme de negro o que vamos assistir ao entrarmos na sala de exibição ou selecionarmos uma categoria na Netflix. Não perca tempo colocando rótulos em filmes ou pessoas. Faça a coisa certa: assista e pense. Sempre.

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Sobre o Colunista:

Bianca Zasso

Bianca Zasso

Bianca Zasso é jornalista e especialista em cinema formada pelo Centro Universitário Franciscano (UNIFRA). Durante cinco anos foi figura ativa do projeto Cineclube Unifra. Com diversas publicações, participou da obra Uma história a cada filme (UFSM, vol. 4). Ama cinema desde que se entende por gente, mas foi a partir do final de 2008 que transformou essa paixão em tema de suas pesquisas. Na academia, seu foco é o cinema oriental, com ênfase na obra do cineasta Akira Kurosawa, e o cinema independente americano, analisando as questões fílmicas e antropológicas que envolveram a parceria entre o diretor John Cassavetes e sua esposa, a atriz Gena Rowlands. Como crítica de cinema seu trabalho se expande sobre boa parte da Sétima Arte.

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