Relembrando o Grande Jerry Lewis

Rubens Ewald Filho não poderia deixar de homenagear o gênio, o Rei das Comédias

28/08/2017 15:35 Por Rubens Ewald Filho
Relembrando o Grande Jerry Lewis

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Quem viu as comédias de Jerry Lewis nos cinemas nos anos 1950 a 70, no cinema ou na televisão nunca se esqueceu dele. Continuamos seu admirador até sempre (como sucedeu com Leandro Hassum e o diretor Roberto Santucci que o chamaram para uma participação especial na comédia brasileira Até Que a Sorte nos Separe 2. Não foi grande coisa, mas meu Deus! Mr Lewis quase fez sua despedida num filme brasileiro!!! Só isso já o torna clássico. Depois dele ele fez uma participação em filme de Nicolas Cage! Melhor esquecer este último!).

Sempre compartilhei com os críticos franceses a opinião de que Jerry é um dos grandes humoristas do cinema. E ponto final, quem não concordar pode ir andando porque não é da minha turma! Ao contrário dos americanos que continuaram a desprezá-lo. Mesmo a Academia do Oscar lhe conferiu um prêmio Especial em 2009 não pela carreira, mas por suas obras de caridade! Clássicas e desconhecidas aqui, mas uma escolha presunçosa e burra. Foi um prêmio de consolação, mas mesmo assim Jerry aceitou o chamado Jean Hersholt Award, era melhor do que nada.

Na verdade, duas de minhas maiores emoções foi assisti-lo por duas vezes ao vivo. Primeiro numa rara aparição no palco da Broadway, fazendo o papel do diabo (imaginem só!) no musical Damn Yankees, onde cantava, dançava e fazia maldades só para relembrar o velho Jerry. Estava em plena forma e eu e toda a plateia se emocionava. Acho que até chorei. Afinal estava ali nosso companheiro de infância. Depois o encontrei numa longa e delirante entrevista coletiva no Festival de Veneza em que apareceu de bermudas fazendo todas as gracinhas a que tinha direito (chegaram a me fotografar rindo, de puro prazer). Era como um show de um clown que fez delirar a plateia, como se fosse um amador que entrou por engano na sala. Sem pudor, levantava nas horas erradas, falava mal dos inimigos (mas nunca nada contra de Dean Martin, seu ex-parceiro que nunca esqueceu e que só ficou feliz quando fizeram as pazes pouco antes da morte de Martin).

Mas sem dúvida a obra-prima de Jerry como diretor é O Professor Aloprado, a mais equilibrada de seus trabalhos (e porque foi refilmado com Eddie Murphy, isso lhe restabeleceu as finanças para o resto da vida).

Jerry sempre foi amado pelo público e fez uma fortuna para o estúdio que o contratou: a Paramount. Entre 1949 e 65 foi ouro puro para eles. E sua influência se sente em cômicos como Adam Sandler, Jim Carrey, Roberto Benignini e Billy Crystal. E olhem alguns fatos notáveis:
a) durante os 16 anos que Jerry esteve na Paramount, estrelou 35 filmes. Quando se separou de Dean Martin, foi contratado por dez milhões de dólares pelos 7 anos seguintes. O maior preço já pago para um ator até então;

b) o modelo para a carreira de Jerry foi Charles Chaplin. Ele também quis ser o autor total de seus filmes, tendo sido o primeiro comediante americano a se dirigir a si próprio no cinema sonoro chegando ao cúmulo de financiar um projeto (O Mensageiro Trapalhão/ The Bellboy) com seu próprio dinheiro. Também professor de cinema, foi o criador do chamado Video Assist que todos usam hoje em dia, aquele vídeo onde o diretor pode ver o que foi filmado!

c) com frequência fez em seus filmes papéis múltiplos, talvez porque na vida era um chamado “control freak”, gostava de controlar tudo e todos;

d) era um autodidata, aprendeu tudo sozinho, sobre lente, luzes, câmeras. E também controlava tudo sobre a renda de suas obras;

e) todos os seus filmes para a Paramount foram sucesso, renderam mais de 3 milhões de dólares (sem correção da inflação). Mais que Elvis Presley. O Marujo foi na Onda, 51, por exemplo, rendeu mais do que outros filmes do mesmo ano como Cantando na Chuva e Uma Aventura na África. Diante disso, a Paramount não hesitou em permitir que ele derrubasse as paredes de dois estúdios para poder construir o set de O Terror das Mulheres;

f) enquanto os filmes de Jerry com Dean, eram em geral reciclagem de antigos sucessos do estúdio, os filmes dele sozinho eram ousados e até experimentais;

g) o mestre de Jerry no aprendizado como diretor foi o diretor Frank Tashlin com quem trabalhou várias vezes e de quem tirou o gosto pelo surreal (entre eles Errado pra Cachorro, Ou Vai ou Racha, O Rei dos Mágicos, Bancando a Ama Seca).

Insistindo de novo: Não é difícil explicar o sucesso de Jerry Lewis. Basta não filosofar muito. O fato é que ele é simplesmente muito engraçado. Sempre foi e continuou sendo. Embora tenha gente que a princípio se assuste com o personagem que ele fez, um tipo meio bobo, desengonçado, parecendo mesmo um deficiente. Por isso mesmo que ele dedicou a vida inteira a ajudar os que sofrem de paralisia cerebral, sentindo-se culpado. Mas não esqueçam que era tipo, papel, personagem. Conforme demonstrou mais tarde em outros filmes podia ser também um convincente ator dramático.

Jerry nasceu Joseph Levitch em New Jersey em 1926, filho de comediantes que se apresentavam em festas da colônia judaica. Conheceu Dean em 46 quando se apresentava em Atlantic City e resolveram formar uma dupla, Dean cantando e Jerry fazendo palhaçadas. O produtor Hal Wallis os viu numa casa noturna de Hollywood e resolveu contratá-los e lançá-los no cinema. Mesmo assim durante os seis anos que trabalharam no cinema nunca foram grandes amigos. Eram até rivais e nos últimos filmes nem sequer trocavam mais palavras. Era tudo fingimento para a câmera. Jerry chegou até a escrever um livro onde retrata a satisfação deles terem feito as pazes antes de Dean morrer (no dia de Natal em 1995, aos 78 anos debilitado pelo alcoolismo). Jerry deixa como legado suas comédias e alguns momentos inesquecíveis da difícil arte de fazer rir.

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Sobre o Colunista:

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Seus guias impressos anuais são tidos como a melhor referência em língua portuguesa sobre a sétima arte. Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de “Éramos Seis” de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o “Dicionário de Cineastas”, editado pela primeira vez em 1977 e agora revisado e atualizado, continuando a ser o único de seu gênero no Brasil.

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