As Palavras Andam e Ele Se Aproveita

As Palavras Andam e Ele Se Aproveita

Ontem Não Te Vi em Babilónia é o romance da insônia do leitor (podemos lê-lo numa longa noite de insônia)

18/09/2017 09:16 Por Eron Duarte Fagundes
As Palavras Andam e Ele Se Aproveita

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Chega a ser impressionante o ritmo criativo do escritor português António Lobo Antunes. Ele escreve livrões (volumosos) um atrás do outro e sua invenção narrativa ou linguística nunca decai. Ontem não te vi em Babilónia (2006) é um de seus muitos grandes romances, e novamente o autor vai desbravando caminhos literários inexistentes, retomando seus habituais processos de criação nos últimos anos para os depurar e aprofundar; nunca como nestas primeiras décadas do século XXI a radicalização de narrar de Lobo Antunes delirou tanto e tanto exigiu da capacidade de leitura do homem moderno, habituado com coisas rápidas, digestivas, sem maiores voos. É surpreendente que, no mundo da imbecilidade da leitura e das bravatas dos ridículos pretensiosos que querem a qualquer preço empurrar-se para o público, ainda haja quem ouse publicar Lobo Antunes e, mais que tudo, alguns que se deliciem com seus textos sem concessão. Sem leitores não há livros, o livro existe mesmo é na mente do leitor; mas quem disse que o leitor é necessariamente o leitor massificado?

A construção de Ontem não te vi em Babilónia, como vem sendo as construções dos mais recentes romances de Lobo Antunes, é sincopada, isto é, está cheia de anacolutos, as frases, as situações, os focos narrativos seguidamente interferem na linearidade do leitor de maneira abrupta e experimental, criando um conjunto sintático-narrativo único, exuberantemente excêntrico e que é capaz de fascinar por sua constante criatividade a cada passo, a cada curva da oração. A influência da era do cinema neste processo de cortes e multifacetadas técnicas de narrar é usada de maneira complexa por Lobo Antunes; não há a limitação objetiva de descrever as coisas como se estivesse o escritor usando uma câmara, a própria sintaxe se elabora à sombra e à luz dos processos cinematográficos, processos que são experimentais e provocativos. Não sei de autor de nossa língua que tenha penetrado tão fundamente as entranhas de nosso idioma; é essencialmente um homem da linguagem escrita e, mesmo valendo-se de técnicas alienígenas (o cinema), nunca abastarda a essência literária de seus textos, como costuma acontecer hoje em dia.

As vozes narrativas são muitas e disparatadas em Lobo Antunes. Isto o diferencia de seu patrício mais conhecido por aqui, José Saramago, que é mais clássico em seu narrador neutro. Em Lobo Antunes são, desde seus primeiros livros e mais ainda nos últimos, muitas almas que aos poucos se vão fundindo e confundindo de maneira exemplar; é uma provocação à inteligência e à atenção ou percepção do leitor. Em Ontem não te vi em Babilónia as manifestações de um grupo pequeno de personagens se estruturam em capítulos que compõem cada uma das partes que indicam a passagem das horas numa insone madrugada apanhada pelo verbo de Lobo Antunes. São manifestações que se distinguem umas das outras e ao mesmo tempo se aproximam e assemelham quando os detalhes de distinção são espalhados espaçadamente pelas páginas e os rompimentos espirituais que surgem pertencem a cada um dos seres e a todos ao mesmo tempo. A construção clássica desaba. No final, o próprio Lobo Antunes se intromete  como uma outra voz, um outro narrador, mas é breve e no entanto está sempre por trás de tudo: “chamo-me António Lobo Antunes, nasci em São Sebastião da Pedreira e ando a escrever um livro)”.

Não entres tão depressa nessa noite escura, diz o título de um outro romance de Lobo Antunes, mas parece ser também o convite para se degustar palavra a palavra, sintaxe a sintaxe este monumento verbal que é Ontem não te vi em Babilónia. Se, como certa vez disse o escritor francês Alain Robbe-Grillet, a verdadeira literatura deve estar pronta para ser recitada e ouvida, então um texto narrativo como este de Ontem não te vi em Babilónia é a autêntica porta para o paraíso da estética literária. Vai-se sentindo nos poros os sons da leitura que se faz ao longo de suas pouco mais de quatrocentas páginas.

Ontem não te vi em Babilónia é o romance da insônia do leitor (podemos lê-lo numa longa noite de insônia), assim como Em busca do tempo perdido (1912-1923), do francês Marcel Proust, é o romance da hepatite (um amigo, crítico de cinema, me afirmou nos anos 80 que nunca lera Proust e só o faria se caísse de cama, com hepatite, uma metáfora que me ficou), e Finnegans wake (1939), do irlandês James Joyce, é o romance da queda de nossos neurônios (estamos num hospício e nos preparamos para lê-lo; como anota o protagonista-narrador de Solo, 2008, romance do gaúcho Juremir Machado da Silva: o texto de Joyce deve ser o de “um louco completamente dopado com um coquetel de porcarias antipsicóticas”). Assim, se entrelaçam a noite de Babilónia de Lobo Antunes, a doença acamada de Proust e a demência verbal de Joyce.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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