As Sujeiras da Política no Príncipe da Estética

O francês Gustave Flaubert foi, como o brasileiro Machado de Assis, um esteta em grau máximo

13/04/2018 16:09 Por Eron Duarte Fagundes
As Sujeiras da Política no Príncipe da Estética

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O francês Gustave Flaubert foi, como o brasileiro Machado de Assis, um esteta em grau máximo. A obsessão pela forma dá sua grandeza e ao mesmo tempo seus limites. Engessado na oração perfeita, sente-se muitas vezes que Flaubert (ou mesmo Machado) não logra expandir o universo humano em torno do qual circula. Honoré de Balzac ou Lima Barreto são mais desabusados no estilo, mas atingem camadas escuras que o verbo refinado de Fluabert ou Machado tem dificuldade de descobrir. Depois de Madame Bovary (1857), Flaubert não tinha mais nada o que oferecer em termos de estilização da língua francesa; então, doze anos depois, ele faria vir à luz um romance que rivalizaria com Bovary na posteridade, A educação sentimental (L’éducation sentimentale; 1869), igualmente escrito sob sua forma precisa e única, quase como um compasso que mede cada uso de palavras, todavia abrindo-se para certas sujeiras da vida não tão estetizadas quanto as escapadas de Ema no romance anterior. Estas sujeiras são porções históricas da vida na França nos anos 40 do século XIX, um período agitado, ao mesmo tempo rebelde e prepotente como tantos outros na história da humanidade: de certa maneira a política e as tensões sociais dali nascidas agitam o estilo imperturbável de Flaubert, tanto quanto possível.

Frédéric Moreau, o protagonista do romance, é, como o balzaquiano Luciano de Rubempré e o stendhaliano Julien Sorel, um provinciano deslumbrado com a grande cidade ou com os grandes salões ou com as possibilidades de seduzir o maior número de mulheres. No começo de A educação sentimental ele está chegando a Paris. “Le 15 septembre 1840, vers six heures du matin, la Ville-de-Montereau, près de partir, fumait à gros tourbillons devant le quai Saint-Bernard.” (“Em 15 de setembro de 1840, ali pelas seis da manhã, o La Ville-deMontereau, próximo de partir, fumegava em espessos turbilhões diante do cais Saint-Bernard.”). O que se vê na sequência é a imersão da personagem na vida social parisiense, tudo sob o foco das transformações políticas dos anos 40 de seu século; estas transformações, no fundo, eram prolongamentos daquilo que se deu na Revolução Francesa na centúria anterior, pois Frédéric, uma criação ficcional, depara nas ruas com a mesma violência e os mesmos cadáveres que o escritor Restif de Bretonne, um ser que de fato existiu, relata em seu As noites revolucionárias (1794), que provavelmente Flaubert, francês culto, deve ter lido. O sangue e o medo acabam por contaminar um pouco a implacabilidade e o distanciamento emocional do escrever de Flaubert.

É claro que, nas sombras do Flaubert realista e estilista, acodem ecos dum Flaubert anterior à sua própria escrita, um Flaubert primeiro leitor, um leitor romântico, ingênuo, primitivo. “Les images que ces lectures amenaient à son esprit l’obsédaient si fort, qu’il éprouvait besoin de les reproduire. Il ambitionait d’être un jour le Walter Scott de la France. Deslauriers méditait un vaste système de philosophie, qui aurait les applications les plus loiantaines.” (“As imagens que estas leituras traziam a seu espírito o obcecavam tão fortemente, que ele experimentava a necessidade de as reproduzir. Ele ambicionava ser um dia o Walter Scott da França. Deslauriers meditava num vasto sistema de filosofia, que teria as aplicações mais remotas.”). No romance a persona de Flaubert, o romancista, se divide em duas personagens: primeiramente Frédéric, que é seu lado incauto e hedonista, o tolo Scott da Inglaterra, o idiota da família desenhado pelo ensaísta Jean-Paul Sartre; depois o amigo de Frédéric, o cínico e enviesado Deslauriers, estas relações intrínsecas entre Frédéric e Deslauriers são um pouco como um jogo, aquele mesmo entre Rastignac e Vautrin em Balzac (O pai Goriot, 1834), só que menos turbulento, graças ao estilo de Flaubert, menos abissal, aquele estilo que jejua de metáforas e que tanto perturbou o complexo pensamento de Marcel Proust num artigo famoso sobre seu antecessor francês.

Quem conduz a ação narrativa em A educação sentimental é mesmo esta amizade que se completa e se afasta em cena, mais do que a figura isolada de Frédéric, vagando perdido no mundo francês de então. Deslauriers se ausenta muitas vezes do enredo, mas suas voltas são sempre cortantes. Seu último retorno é no fim, para um diálogo tão simplório que deve ter incomodado o atmosférico Proust:

“—C’est là ce que nous avons eu de meilleur! dit Frédéric.
—Oui, peut-être bien? C’est là ce que nous avons eu de meilleur! dit Deslauriers.”

(“—Foi lá o que tivemos de melhor! —disse Fréderic.
—Sim, talvez, não? Foi lá o que tivemos de melhor!— disse Deslauriers.”).

É a melancolia final das personagens. O tempo passado sem os grandes brilhos oracionais de Proust. O tempo passado, simplesmente. “Mais la chaleur qu’il faisait, l’appréhension de l’inconnu, une espèce de remords, et jusq’au plaisir de voir, d’un seul coup d’oeil, tant des femmes à sa disposition, l’émurent tellement, qu’il devint très pâle et restait sans avancer, sans rien dire.” (“Mas o calor que fazia, a apreensão do desconhecido, uma espécie de remorso, e até o prazer de ver, num golpe só, tantas mulheres à sua disposição, o emocionaram tanto que ele ficou muito pálido e permanecia sem avançar, sem dizer nada.”). Demais, como se vê de tantas citações no original francês, Flaubert vale-se dum uso particular do tempo imperfeito dos verbos, como bem observou Proust no já aludido artigo, “o subjetivismo de Flaubert se exprime por um uso dos tempos dos verbos, das preposições, dos advérbios, os dois últimos não tendo quase nunca em sua frase mais que um valor rítmico.” No lugar do habitual “passé composé” (“il est resté”) o inovador “imparfait” (“il restait sans avancer”), contrastando com um uso imediatamente anterior do verbo, “devint”, “passé simple”, estas oscilações da conjugação em Flaubert nunca são gratuitas, o passado simples ou composto serve para dar uma forma definida ao ato ou situação (“devint très pâle”, empalideceu, como numa gravura), o imperfeito torna vaga e continuada a ação, “il restait sans avancer”, uma tentativa de captar o movimento da ação no tempo, um pré-cinematógrafo.

Sujando as mãos mais do que nas alcovas de Madame Bovary, o Flaubert das agitações de rua de A educação sentimental propõe uma fusão de estilo e temática quase transbordante. Mas longe das simbologias verbais proustianas. Daí o estranho artigo que Proust escreveu sobre seu confrade antigo: quase reclamando que Flaubert não fosse Proust; do tipo, eu analista examino o outro esperando que ele me seja. Por mais inverossímil e no entanto natural que este desejo possa ser.

 

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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