Retrato de Provincia em Chabrol
O Acougueiro, habitualmente posto entre as obras-primas do realizador, navega entre duas influencias, esteticas e intelectuais
O centro do cinema do francês Claude Chabrol teve duas inspirações básicas: uma, de natureza literária, os romances de Honoré de Balzac, o mais célebre dos escritores franceses novecentistas; outra, de origem cinematográfica mesmo, os filmes policiais de mistério e engenho do cineasta Alfred Hitchcock. O açougueiro (Le Boucher; 1970), habitualmente posto entre as obras-primas do realizador, navega entre as duas influências, estéticas e intelectuais. A professora Hélène, interpretada pela musa e companheira de Chabrol pela vida toda, Stéphane Audran, parece uma destas loiras frias, assépticas e assexuadas que Hitchcock costumava pôr em suas obras, assim como a descoberta ao acaso do primeiro cadáver duma série de mulheres assassinadas por um maníaco não-sexual durante uma excursão do colégio em que as crianças se assustam e a professora se esforça por protegê-las remete um pouco à atmosfera de O terceiro tiro (1955), também com um crime que é um pouco uma trama acessória mas logo se torna determinante da narrativa.
E Balzac? Numa sequência de sala de aula a professora lê um trecho dum romance de Balzac em que a personagem se chama Hélène, assim como a educadora de O açougueiro, também Hélène. Demais os planos de cenário de província buscados por Chabrol são muito balzaquianos: uma crônica de costumes, despojada e crítica. No início do filme, Balzac filma um casamento, documentalmente, registrando as ações e as aspirações interioranas daqueles seres. No universo daquela festa em família, visando a uma formação familiar, o narrador (Chabrol e sua câmara) destaca duas personagens que nas cenas seguintes preencherão a narrativa: a professora e Paul, ambos são amigos, nada da relação homem-mulher, embora sempre à beira de espreitar a curiosidade do espectador para esta outra coisa que poderia acontecer entre eles. Enquanto as coisas se desenvolvem, os crimes acontecem longe das câmaras, fazendo com que a polícia entre em ação. Parece um desses crimes seriados insolúveis do interior; até que, exacerbados, Hélène e Paul vão encenar a inesperada (ou quase esperada) revelação. Como em M, o vampiro em Düsseldorf (1931), do alemão Fritz Lang, o criminoso é um pacato cidadão; desfeita a ideia de um monstro caracterizado, o desfecho é mais seco e os olhares inquisidores que Stéphane Audran empresta à sua Hélène é um dos grandes momentos do cinema como natureza antropoestética.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro Uma vida nos cinemas, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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