O Ser Humano O Servo

O romancista William Somerset Maugham foi muito lido em seu tempo

10/08/2015 12:28 Por Eron Duarte Fagundes
O Ser Humano É O Servo

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O romancista inglês William Somerset Maugham foi muito lido em seu tempo. Como todo indivíduo que vende bem seus livros, gerava a suspeita dos analistas da literatura: deve haver alguma coisa errada com ele, alguma superficialidade nas emoções, para se dar tão bem com o público. Alguns estudiosos o defendiam das desconfianças. Entre nós, o ensaísta Otto Maria Carpeaux.

Maugham escreveu várias coisas maravilhosas. Certos contos passados nos mares do sul, por exemplo. Mas bastaria um romanção de formação, Servidão humana (Of human bondage; 1915), que agora completa cem anos de leituras ininterruptas, por variadas mentes, para lhe decretar assento notável no panteão dos escritores. Parece que o ficcionista, neste livro, exorcizou toda a sua vida. Intelectual em muitos momentos diletante como sua personagem Philip Carey, com inoperâncias físicas e psicológicas como Philip, como Philip marcado em suas ousadias por uma sociedade britânica repressiva e moralmente anacrônica, Maugham  fez de Servidão humana sua extraordinária vingança contra o mundo. Mas isto não seria suficiente para seu privilegiado assento de escritor. O que garante a plenitude de sua narrativa é aquela habilidade profunda que caracteriza os bons contadores de história em qualquer época, Homero, Boccaccio e adjacências.

Maugham dizia que inventara praticamente todos os episódios de Servidão humana, mas as sensações de sua personagem central eram verdadeiras: Maugham as teria experimentado a todas como homem, do aprendizado intelectual e estético, dos deslumbramentos e das decepções, das humilhações emocionais e físicas, até a derradeira meditação sobre o sentido de o homem se entregar a isso tudo.

Em Servidão humana o leitor vai acompanhar a formação de um indivíduo. Como em O ateneu (1888), do brasileiro Raul Pompeia. Ou Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1808), do alemão Goethe. Ou ainda O jovem Törless (1906), uma novela alemã de Robert Musil. A cena inicial do romance de Maugham dá-se no dia em que morrerá a mãe de Philip, ele ainda um menino. “The day broke gray and dull”. O predicativo invade o verbo. E assim também o íntimo e as circunstâncias do garoto. A natureza do dia exterior, cinzento e nublado (“gray and dull”), vai determinar o espírito interior daquele dia de Philip, um dia tão cinza e cheio de nuvens como o que se apresenta no céu. Acordam Philip para ele dar adeus ao amor de sua mãe, que está morrendo depois de um parto em que o bebê veio de morrer. Dali para a frente, criado pelos tios, que, como se sabe, nunca substituem a paixão materna, a vida de Philip seguirá por trilhos desorganizados e tumultuados. Topando amigos diferentes, que diferentemente agem sobre sua alma, Philip vem a ter uma parte essencial de sua formação operada num dos centros das luzes europeias do começo do século XX, Paris. Depois, de volta à Inglaterra, um encontro emocional que vai atordoá-lo até o fim: Mildred, a mulher que o subjuga como a um bicho, que faz dele, o homem culto, refinado, o autêntico servo humano. Mildred, a criatura que destrói a independência do indivíduo que o ama, e o transforma, quase  inconscientemente de ambas as partes, num cavalinho para uso particular.

Mildred é a grande lição não aprendida de Philip. Mas há outras lições. Em seu primeiro dia de escola, em Tercanbury, um garoto percebe o defeito físico do pé de Philip e, após algumas perguntas diversificadas e vazias, lança em rosto do protagonista: “What’s the matter with your foot?” Philip tenta esconder o pé defeituoso atrás do pé são, mas logo vê a inutilidade do gesto e responde: “I’ve got a clubfoot”. Desde ali, ele sabe que o pezinho torto vai ter de conviver com os meios sociais onde se dispuser a estar. Mais tarde, já adolescente, descobrindo o mundo, a lição de cinismo de seu colega Weeks sobre um outro colega que Philip admira: Hayward. Faz sentido. Weeks é americano, o idealista Hayward é inglês. Do que Weeks zomba em Hayward é essa pose intelectual de quem se está preparando para o grande salto, para ser o artista consumado. Weeks afirma para a perplexidade de Philip que há centenas de Haywards por aí afora. “I’ve met him in the Latin Quarter in Paris, and I’ve met in pensions in Berlim and Munich. He lives in small hotels in Perugia and Assisi. He stands by the dozen the Botticellis in Florence, and he sits on all the benches of the Sistine Chapel in Rome.” Quer dizer: tipos que circulam pelos lugares intelectualmente prestigiados —mas não produzem nada. Mais: “He always admires the right thing whatever the right thing is, and one of these days going to write a great work.” Mas esta grande obra gestada por este cérebro nunca vem. Mais para o fim, acumulando inconscientemente estas experiências, Philip se esforça por captar o sombrio disto tudo. Após a morte de Hayward, ligando-a à morte anterior de outro camarada, seu desespero tergiversa. “Philip asked himself desesperatly what was the use of living at all. It all seemed inane. It was the name with Cronshaw: it was quite unimportant that he had lived; he was dead and forgotten, his book of poems sold in remainder by second-hand booksellers; his life seemed to have served nothing except to give a pushing journaliste occasion to write an article in a review. And Philip  cried out in his soul:” Que grita Philip dentro em sua alma? “What is the use of it?”.

Viver não serviria para nada? No fim de tudo, no fim do romance, Philip encontra Sally, a mulher com quem vai casar-se. Depois de um rebate falso em que ela lhe revela que a suspeita de gravidez não se confirmara, Philip descobre a intenção básica de sua vida: uma esposa, uma casa, um amor. Se o dia cinzento e nublado da primeira frase prenunciava as atribulações que viriam nos dias seguintes da vida de Philip, a frase que encerra Servidão humana abre uma porta para a luz do sol. “Cabs and omnibuses hurried to and fro, and crowds passed, hastening in every direction, and the sun was shining.” Ora vivas, Mr. Maugham, apesar de tudo, o sol estava brilhando?

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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