Rossellini ao Quadrado nos Taviani
Isabella Rossellini é a estrela de O Prado (Il prato; 1979), filme rodado pelos italianos Paolo e Vittorio Taviani


Isabella Rossellini é a estrela de O prado (Il prato; 1979), filme rodado pelos italianos Paolo e Vittorio Taviani ancorado em sua maior parte no realismo humanista do cineasta italiano Roberto Rossellini. Como Rossellini, os Taviani se opõem ao estrelismo cinematográfico, embora (como se vê) nem sempre desdenhem da posição duma estrela dentro de sua linguagem. Isabella é filha de Rossellini com uma estrela de Hollywood que “adulterou” o cinema de Rossellini, a sueca Ingrid Bergman; em cena Isabella não deixa de ser, em O prado, uma sombra benfazeja de sua mãe e também de seu pai, misturando a reflexão humanista com a necessidade de estrela do cinema.
Numa determinada cena a personagem de Isabella está numa sala de cinema vendo o clássico Alemanha, ano zero (1949), de papai Rossellini; cenas da Berlim destruída pela guerra e as dolorosas imagens do suicídio do garoto Edmundo são citações cinematográficas dentro de O prado. Antes desta cena, um dos namorados de Eugenia, a personagem de Isabella, referiu à garota a experiência de ver a obra-prima de Rossellini. Assim, Isabella e Alemanha, ano zero são a ponte que permitem aos Taviani admitir as conexões espirituais de O prado com o jeito rosselliniano de fazer cinema.
Em O prado há grandes planos abertos dos prados do interior da Itália; a beleza visual de O prado se aproxima muito duma metafísica do cinema que remete ainda e sempre a Rossellini. O prado conta com graça melancólica sua história. É uma história de amor em que uma misteriosa mulher interiorana é amada ao mesmo tempo por dois homens; nada a ver, todavia, com o amor segundo o francês François Truffaut, é um amor transcendente e agudo que vizinha com a poesia. Eugenia aparece pela primeira vez no filme em cima de pernas de pau, divertindo as crianças de aldeia. Giovani é quem narra o filme, com suas cartas endereçadas a um amigo chamado Leonardo. Enzo é mais calado, mas se intromete no caso de amor onde Giovanni desde o início aclara seu encanto com a mulher-mistério.
Sua referência às asperezas mortais de Alemanha, ano zero se sedimentam no final, quando um pai amargurado, o pai de Giovanni, tem de conduzir seu filho à morte de helicóptero para tentar salvá-lo. É o mesmo desespero do espectador diante do suicídio do menino Edmundo no filme de Rossellini.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)


Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro Uma vida nos cinemas, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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