O Pampa Oculto no Pensamento de Juremir

Juremir Machado da Silva é um homem do extremo-sul do Brasil, um homem da campanha gaúcha

27/07/2017 10:33 Por Eron Duarte Fagundes
O Pampa Oculto no Pensamento de Juremir

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Juremir Machado da Silva é um homem do extremo-sul do Brasil, um homem da campanha gaúcha. Ainda que ele tenha percorrido o mundo, física e geograficamente ou em aquisições culturais, este ponto inicial de sua formação deve definir a estrutura de seu barroquismo, presente na diversidade de ensaios ou ficções que vêm alimentando sua mente e sua escrita ao longo dos anos. Isto acusa uma  constante que, a despeito de diferenças laterais, em suas produções em várias décadas em diversos modos de expressão, a filosofia, a antropologia, a literatura, sempre torna ao centro das coisas.

Agora Juremir ataca com um ensaio que traz um título extremamente barroco: Diferença e descobrimento. O que é o imaginário? (A hipótese do excedente de significação) (2017). No fundo, é o aprofundamento de várias ideias tentadas por Juremir em obras variadas, ensaio ou ficção, especialmente uma espécie de continuação daquilo que ele propusera num outro opúsculo, As tecnologias do imaginário (2003), como se vê, um título mais comercial, mas em busca daquilo que o público atual quer, umas tecnologias. No começo de Diferença e descobrimento lemos três curtas frases-parágrafo:

“O sentido só se dá no imaginário.
O excedente é uma falta.
Uma falta no que faz sentido.”

O que remete ao início de As tecnologias do imaginário: “Todo imaginário é real. Todo real é imaginário. O homem só existe na realidade imaginal.” Mas: “O que é o imaginário? Um produto da imaginação? Aquilo que resta depois do vivido? Aquilo que faz imaginar e não pode ser simbolizado?” Estas perguntas inquietam o âmago de Diferença e descobrimento e levam a algumas sentenças oblíquas: “O imaginário é uma memória  afetiva na parede do tempo.”

Jean-Paul Sartre anota, na introdução de A imaginação (1936), uma de suas primeiras aventuras de pensamento: “Já que a imagem é o objeto, concluímos que a imagem existe como objeto. E, desta maneira, constitui-se o que chamaremos metafísica ingênua da imagem.” Que seria o excedente de significação identificado por Juremir? Uma hipótese, ele lembra. Mas que é excedente, em se considerando verdadeira a hipótese? A distância que vai do objeto à imagem e permanece no tempo, como memória afetiva? Em As tecnologias do imaginário o ensaísta fixa: “A palavra imaginário virou moda na última década do século XX.” Nos anos 80, o crítico brasileiro de cinema José Carlos Avellar publicou um livro em que, reunindo alguns de seus textos de cinema e dando-lhes unidade nova longe da dispersão dos textos em jornal, usou um título em que se valia de aliterações que punham em xeque conceitos aparentemente próximos e no entanto distanciados: Imagem e som, imagem e ação, imaginação (1982). Misturam-se coisas como imagem, som (imagem e som é uma das definições do cinema), ação e depois vem a fusão, imaginação, já adivinhada pelo dueto anterior, imagem e ação. Que tem a ver uma coisa coma outra? Num dos textos do livro, de julho de 1981, comentando o filme Meu tio da América (1980), Avellar fala do discurso do diretor francês Alain Resnais em que ele distingue memória de imaginário, pois todo animal tem memória e só o homem consegue ter um imaginário, onde o cérebro pode “criar novas combinações, remontar as imagens retidas na memória e, entre outras mil coisas, ‘inventar roteiros, fazer filmes’.” Em Diferença e descobrimento está observado: ‘É o que fazem as tecnologias do imaginário. No século XX, a mais eficaz dentre elas foi o cinema.”

O cinema é uma parte. Mas não é tudo. “Não há indisponibilidade para o imaginário, salvo a depressão, o ceticismo extremo ou o niilismo doentio.”

Voltando à minha “metafísica ingênua” da frase que abre este meu artigo, não vejo como desligar a figura e o imaginário do pampa das coisas (neste caso, literárias, que são as que me interessam) que Juremir tem feito vida afora. Como todo imaginário, é determinante, não num sentido exato, científico, mas entre as hipóteses possíveis; ao inserir a crônica da floresta encantada como um dos fechamentos de suas reflexões, Juremir propõe este retorno: retorna para menino no menino que seria hoje seu sobrinho. O imaginário familiar converte-se, grandemente, num imaginário literário, filosófico, antropológico.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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