O Tringulo Amoroso de Juremir

Conhea o livro de Juremir Machado da Silva: "No se pode deixar de ler Um Escritor no Fim do Mundo como um romance de ideias, antes, bem antes de o ler como um relato de viagens."

20/06/2013 22:02 Por Eron Fagundes
O Tri창ngulo Amoroso de Juremir

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Há um artifício de difícil definição que centraliza a  estrutura narrativa de Um escritor no fim do mundo (viagem com Michel Houellebecq à Patagônia (2011), a nova aventura literária do escritor brasileiro Juremir Machado da Silva. Aparentemente Juremir decidiu simplesmente relatar em livro (“Bastou uma semana para que eu estivesse determinado a fazê-lo. Talvez até menos.”) uma viagem à Patagônia em que as personagens eram o próprio autor, sua mulher Cláudia e o escritor francês Michel Houellebecq. Ocorre que Juremir é acima de tudo um ficcionista, e de primeira. Assim, tomo a liberdade de pensar (inventando um pouco ou totalmente?) que tal viagem existiu somente para que a narrativa de Juremir se materializasse: é como se o Narrador (assim como um documentarista no cinema) dirigisse seus atores (ele mesmo, o que parece ser mais fácil; sua esposa e o romancista que admira) para que criassem uma nova realidade para o mundo das palavras. Este é o artifício: apresentar a realidade aparente para uma construção estética, um modo de ver o mundo pela lente literária.

Não se pode deixar de ler Um escritor no fim do mundo como um romance de ideias, antes, bem antes de o ler como um relato de viagens. Juremir começa parodiando o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, que viveu um bom tempo no Brasil e em torno de nosso país escreveu seu livro clássico. Strauss começa Tristes trópicos (1955) dizendo que odeia viagens e exploradores. Mas afirma, contraditoriamente, que se prepara para uma nova expedição. Juremir, diferentemente, afirma as viagens e as memórias fugitivas, ao mesmo tempo em que odeia os viajantes e os seus relatos, o mais das vezes tristes e longos. Então Juremir ensaia uma contradição: diz que vai relatar sua viagem à Patagônia com Cláudia e Michel. O que se vai ler, todavia, não é um relato de viagem; é um encontro de emoções de três personagens, duas delas (Juremir e Michel) escritores às voltas com suas próprias relações intelectuais.

Como desfazer este artifício de uma história nascida na realidade que se converte numa estrutura romanesca? É um problema de leitura, e tem uma sedução infindável e insolúvel. Juremir admira a literatura de Michel. Mas o confronta: Juremir provoca a implicância de Michel para com a literatura de Louis Ferdinand Celine e o provoca ainda mais quando refere algumas possíveis passagens chatas da literatura de Marcel Proust, o que traz uma reação imediata de Michel (“Tu não podes dizer isto, Juremir. Ele é sublime.”). Misturando a paixão pela ficção de Michel com seu amor à esposa, Cláudia, Juremir brinca com outra questão: o que pode haver de erotismo numa admiração pela estética do outro? Normalmente os leitores estamos à distância física de nossos autores preferidos, o que facilita o platonismo deste conceito de erotismo. Juremir não: estava diante de Cláudia e de seu amado autor Michel, o que perturba ainda mais o método de análise de questão. Certas brincadeiras com gestos ambíguos de Michel à porta do quarto de hotel e certas provocações entre Cláudia e Juremir materializam este triângulo tão confuso quanto perplexo, onde cruzam grandezas que não poderiam cruzar-se, a admiração estética e admiração sexual e afetiva — a não ser, é claro, quando a gente casa com o objeto da admiração estética, como ocorreu com o crítico de cinema Paulo Emilio Salles Gomes que teve por esposa uma romancista que ele admirava, Lygia Fagundes Telles.

Desmontar o artifício da realidade nas invenções literárias é um desafio mais ou menos novo em Um escritor no fim do mundo. Mas há outro artifício que precisa ser desfeito: o andamento inicial do livro de Juremir insinua remeter a Tristes trópicos, mas entre a sanguínea pulsação intelectual brasileira de Juremir e o cartesianismo documental francês de Levi-Strauss vai uma distância que não caberia descrever nestas páginas.

E, diante dos conflitos íntimos, temperamentais, artísticos encenados por Michel e Juremir nas páginas de Um escritor no fim do mundo (o título adequado seria Dois escritores no fim do mundo, que é do que trata mesmo o livro), volto ao universo de Marcel Proust, um dos pontos-chave destes conflitos: “Ainsi toute ma vie jusqu’à ce jour aurait pu et n’aurait pas pu être resumée sous ce titre: Une vocation.” Michel diz que Proust não serve para nada, senão para se dizer: que sublime! Bom, quem sabe, com sua radical opção pela literatura deixando de viver, deixe aos autênticos escritores, como Juremir e Michel, que se perguntam insistentemente os motivos de se estar escrevendo, este resumo: uma vocação. A vocação de escrever e a vocação de pensar sobre o escrever está no centro de Um escritor no fim do mundo.

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a dcada de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publica寤es de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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