A Estranheza e o Escândalo no Cinema Francês

Alain Guiraudie é um dos cineastas franceses que mais chama a atenção

28/09/2017 08:27 Por Eron Duarte Fagundes
A Estranheza e o Escândalo no Cinema Francês

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Alain Guiraudie é um dos cineastas franceses que mais chama a atenção hoje entre os espectadores ávidos por atmosferas tão escandalosas quanto diferentes no cinema. Na vertical (Rester vertical; 2016) segue a linha de seu cinema cortante, sem papas na língua, dotado também duma visão ali entre o obscuro e o misterioso para provocar algo como uma morbidez erótica do observador. O que se vira em Um estranho no lago (2012), até agora sua realização mais aludida, é reencontrado em Na vertical: a obsessão pan-sexual, com ênfase na homossexualidade, tudo vazado numa travessura formal perversa, quase diabólica. Na vertical, é bem verdade, não chega às acuidades de Um estranho no lago: há aqui e ali uma pendência para uma objetividade mais pacificada estilisticamente.

No entanto,  o gosto do realizador pelas formas exigentes, onde uma certa lentidão (ora planos parados, ora sinuosos movimentos de câmara, ora o próprio secreto corte na montagem) proporciona ao assistente a fruição duma plástica de filmar bastante particular, dá sua presença forte, elevando Na vertical para além do ramerrão da programação habitual de filmes nos cinemas comerciais.

A personagem que conduz a trama é Léo, um jovem que vaga pela campanha francesa ao que parece em busca de si mesmo. Apesar da libertinagem geral de seu périplo, ele acaba, burguesmente, casando-se e tendo um filho. Guiraudie filma um ato sexual entre um homem e uma mulher; o elemento feminino está ali. Mas o universo de relações entre homens, transcendente em Um estranho no lago, vai tornar ao centro nevrálgico de Na vertical: Léo é perseguido pelo desejo dos homens e sente uma forte atração por um garoto que topa em seus vagares. Tanto a questão do desejo dos homens entre eles mesmos interfere na forma cinematográfica de Guiraudie que a cena básica de Na vertical é aquela em que Léo sodomiza um velho no momento em que este velho está morrendo, suicidando-se; o falo de Léo aparece despudoradamente diante das câmaras antes de penetrar em seu decrépito parceiro e Guiraudie desnuda um ato sexual entre homens com uma avidez poucas vezes vista no cinema —o prazer explode dos corpos, especialmente do velho corpo moribundo. Inevitavelmente, este trecho de escândalo do cinema moderno causou incômodo entre boa parte da plateia.

Incomodar: um verbo que define a inquietação de filmar do diretor francês. No lago ou na vertical, um bacanal físico perturbador. O sexo como um ato final antes da morte; Tanatos recepciona Eros.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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